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Frank Zappa

Um documento interessantíssimo. Frank Zappa discute com um ultraconservador americano (e é alvo de alguma imparcialidade dos próprios moderadores do debate) no programa Crossfire, em 1986, sobre uma hipotética censura das letras, imagens, sons e movimentos da música rock.

O fanatismo foi derrotado. Hoje em dia os americanos aceitam “muito pior” do que o que estava em causa naquele tempo. Nessa altura, não sabiam os fanáticos que o seu conservadorismo exarcebado contribuía amplamente para a magia deste movimento cultural, e para o seu sucesso. O contrapeso do conservadorismo, que se vê na postura obstinada e incomodada daquele John Lofton, era o móbil dos que não se subordinavam a uma matriz moral castradora. Os jovens alimentaram-se da magia e o universo cultural americano transformou-se.

Um dos vídeos mais criticados foi este. Os nossos olhos estão moldados para não ver nada de mau neste vídeo. Pelo menos, se a frase anterior não for verdadeira, é muito provável que não o achemos matéria de censura. É por isso que encontramos qualquer coisa de ridículo naqueles homens cinzentos. Separa-nos o tempo, para além do espaço. Zappa, esse, era já intemporal.

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Roubei ao Kontratempos um artigo da socióloga Helena Vilaça, em que ela reflecte sobre a religião e a política nos EUA. Um artigo esclarecedor. Sem dúvida.

Da religião na América

O modo como a política e a religião se interligam na sociedade americana continua a provocar, na grande maioria dos europeus, um olhar de espanto e crítica. Num momento em que decorrem as primárias que decidirão os candidatos à Casa Branca, temos mais um exemplo da importância da religião no cenário político – a fé dos candidatos, os conteúdos religiosos dos discursos, as igrejas visitadas em campanha, a identidade confessional das bases de apoio.

Ao contrário da Europa, onde cada Estado evoluiu em parceria com as respectivas Igrejas dominantes, os EUA, tendo sido povoados por imigrantes com diferentes culturas e religiões, muitos dos quais vítimas de perseguição religiosa na Europa, nunca poderiam eleger a homogeneidade religiosa como sustentáculo da coesão nacional.

Como bem observou Tocqueville em Da democracia na América, a religiosidade inaugurada nos EUA está ancorada na diversidade religiosa e na autonomia desta relativamente à política. Esta autonomia terá desempenhando um papel determinante na formação da democracia norte-americana. Em oposição às teses que sustentavam uma retracção da religião à medida que proliferavam os ideais de liberdade e de humanismo, na América, a vitalidade religiosa conduziu ao ideal de liberdade e à própria modernidade.

O sociólogo Robert Bellah retoma o tema, em meados do século XX, através da tese da religião civil. Segundo Bellah, a dimensão religiosa está presente na vivência da generalidade dos indivíduos que interpretam a experiência histórica à luz duma realidade transcendente, na qual Deus não surge como monopólio de uma denominação ou mesmo do cristianismo. As grandes famílias religiosas americanas partilham símbolos que funcionam como elementos fundamentais para a unidade e a universalidade da nação, constituindo a religião uma referência norteadora da comunidade política, legitimada pela opinião pública.

Uma pesquisa recente do Pew Research Center for the People & the Press sustenta a actualidade daquela tese: 61 por cento dos americanos não gostaria de ter de apoiar um candidato ateu e quase 70 por cento quer um presidente que tenha fortes convicções religiosas, o que é tanto mais curioso se considerarmos que mais de metade dos que não têm filiação religiosa também pensa assim. Estas atitudes são transversais a Republicanos, Democratas e independentes e o perfil dos principais candidatos enquadra-se dentro dos requisitos.

No campo republicano, à excepção de Giuliani, um católico pouco ortodoxo (não praticante e divorciado) e Thompson, educado na protestante Igreja de Cristo e objecto de notícia por não gostar de falar de religião (curiosamente dois candidatos que já desistiram) todos os outros têm convicções religiosas fortes. McCain nasceu na Igreja Episcopal mas frequenta a Igreja Baptista, Paul originariamente luterano, tornou-se episcopal e hoje é baptista, Huckabee é pastor baptista do sul, um evangélico born-again (renascido) e Romney, apesar de mórmon – 25 por cento dos republicanos preferia que não o fosse –, é apreciado pelo facto de ser muito religioso.

O mesmo se passa na área democrata. Clinton projectou na vida política a sua fé metodista, por exemplo, como membro do grupo de oração do Senado. Edwards, que de baptista passou a metodista, co-presidiu, também no Senado, à National Prayer Breakfast. Obama tornou-se membro activo de uma Igreja que combina a teologia luterana com a experiência religiosa negra, a Trinity United Church of Christ.
Quer a diversidade quer o percurso religioso dos candidatos reflectem bem a vitalidade religiosa da sociedade americana. Mais do que pertencer a esta ou aquela confissão o importante é ser crente. A eleição de Kennedy em 1960 é ilustrativa disso. Por outro lado, a política norte-americana está para lá das dicotomias entre direita e esquerda religiosas ou dos grandes grupos: evangélicos, protestantes históricos, católicos, protestantes negros.

Esta complexidade religiosa e política é analisada por Green e Waldman em The Twelve Tribes of American Politics. Dos grupos identificados, destacaremos aqueles cuja representatividade poderá contar eleitoralmente: Direita religiosa, Guerreiros da cultura patriótica, Evangélicos moderados, Protestantes brancos, Católicos convertíveis (brancos), Esquerda religiosa, Latinos, Protestantes negros, Seculares.

Apesar das fidelidades partidárias supostamente rígidas da maioria dos grupos, há um grau de permeabilidade, por vezes, surpreendente. Basta um exemplo. Os Evangélicos moderados, tal como a Direita Cristã, são born-again Christians e defendem, contrariamente à maioria dos americanos, a intervenção das organizações religiosas na política. Jimmy Carter pertence a este grupo, Bill Clinton conquistou-os, façanha que Obama procura reeditar. Se a religião na América pode ser considerada um dos factores explicativos das escolhas eleitorais, em última análise, o que determina o voto político é o modo como os candidatos demonstram a força das suas convicções e a capacidade de as traduzir em metáforas e símbolos religiosos.

Helena Vilaça

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