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Archive for the ‘Ciência’ Category

Aplicar inquéritos é uma tarefa comuníssima nas ciências sociais.  Em circunstâncias bastante diversas, os investigadores inquirem o seu objecto de estudo através de perguntas (semi) rígidas e pré-estabelecidas. Conceber um inquérito não é tão fácil como parece, mas aplicá-lo também não.

Estou neste momento a aplicar inquéritos aos trabalhadores do comércio tradicional do Porto.  Entrar na loja, apresentar o nosso propósito, começar o inquérito (ou ir embora, agradecendo na mesma), explicar as perguntas e as possibilidades de resposta, e tentar obter a “melhor” resposta possível do indivíduo. Pelo meio disto, as interrupções e interjeições, os comentários e opiniões, as graçolas de quem chega, o possível desinteresse do respondente, que só nos quer despachar, ou a pressão de ter o patrão à beira enquanto se responde a questões sobre a satisfação no trabalho.

Enfim, um mar de bactérias que infecta a interacção hermética que o inquérito, em teoria,  exige. Mas é tudo matéria para análise, para tirar notas, para aprofundar em futuras entrevistas. Aos 5 minutos de inquéritos acrescentam-se mais 20 minutos de conversa: sobre a situação do comércio tradicional, sobre a crise, sobre os filhos que estão na universidade como nós, sobre tudo.

O inquérito nunca, mas nunca, é feito de forma pura, mas as impurezas também são importantes para a investigação, seja ela de que tipo for.

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O suicídio e o clima

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Um estudo efectuado na Área Metropolitana do Porto sugere que o clima tem algum peso na ocorrência de tentativas de suicídio. Passo a citar parte dos resultados preliminares:

(…) Apesar das condicionantes psicológicas, sociais, e económicas, terem, em proporção, um peso muito superior às de natureza climatológica, parece haver, na distribuição de tentativas de suicídio que recorreram às urgências do Hospital S. João (Porto) uma sazonalidade que confirma a hipótese deste gesto ser encorajado pela matriz climatológica vivida no própria dia e nos imediatamente anteriores. (…) Não serão, portanto, os dias especialmente quentes ou frios, os mais secos ou aqueles em que ocorre maior precipitação, os que concorrem para a tomada de decisão. Esta parece reforçar-se quando a variabilidade térmica é grande, em curtos períodos, ou quando o “estado do tempo” é inesperado para o momento do ano. (…) (pág. 68 )

As ciências partilham objectos de estudo. Elas partem da sua abordagem disciplinar específica e gladiam-se pela melhor explicação dos fenómenos. Faz parte do campo académico. Confiro toda a legitimidade a que se faça qualquer tipo de estudo, só que neste caso, e apesar de a linguagem utilizada na explanação dos resultados preliminares do estudo ser muito cuidadosa, não encontro lógica nele. Não poderia ser de outra maneira. A abordagem climatológica é esmagada pelas abordagens da psicologia, psiquiatria, sociologia, etc. Talvez o clima tenha peso no suicídio: peso pluma.

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