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Archive for Novembro, 2012

Pouco tempo depois de rejeitar aquele emprego manhoso consegui um part-time como “escriturário”, ou melhor, como funcionário de apoio ao cliente no “harrods” português (espanhol, na verdade). Quando pensamos nas coisas com a maturidade que o tempo nos dá vemos sempre pormenores que nos escaparam anteriormente. Este deve ter sido dos poucos empregos em que ir a uma entrevista com um blazer e sapatos, muito aprumadinho, fez a diferença. Olharam para mim de forma diferente desde o início. Isso, e ser o meu primeiro emprego oficial também lhes fazia jeito, pois claro.

Exames ao sangue e à urina foram feitos logo a seguir à minha seleção, não fosse eu ser um drogado ou um doente qualquer. Tive de comprar fatos, camisas e sapatos para trabalhar. Nunca me ajudaram com essa despesa.

Não foi um trabalho fácil. Senti pressão muitas vezes, aturei muitos parvalhões, aprendi muito.  Nunca me deram asas para aprender muito mais porque o meu destino estava definido. Ao fim de um ano de trabalho não renovaram o contrato. Quando fui acertar contas deram-me o que para mim era um “dinheirão”. Pelas minhas contas até me pagaram mais do que deviam em ordenado, subsídios,  etc. Nada mau.

Nessa altura, em que pisava pela última vez o chão daquele sítio, vi o fim de um ciclo e o início de outro. Decorria já a formação de mais um grupo de novos funcionários, quase todos no primeiro emprego, cuja contratação beneficia a empresa durante um ano apenas. Depois troca-se. Eu chamo-lhe uma espécie de leasing de pessoas.

Tal como o nosso primeiro-ministro disse, não podemos ver o desemprego apenas como uma tragédia. Para mim foi de facto uma oportunidade. Cada empurrão que me foram dando para fora de Portugal foi o melhor que me podiam ter feito. Não muito tempo depois de eu sair do tal “harrods” deu-se uma razia completa no número de funcionários. A crise tinha começado a bater a sério. Não tenho números concretos, e estarei apenas a especular, mas estimo que entre 30% a 40% das pessoas saíram. No meu departamento foram cerca de metade. Para as alturas em que estavam 7, 8 ou 9 pessoas a trabalhar eram agora necessárias apenas 3 ou 4 e tinham, ainda assim, um trabalho tranquilo.

Não me renovarem o contrato acabou por ser uma poupança do meu tempo. Não perdi mais tempo num emprego sem possibilidades de progressão na carreira e, como se viu, sem futuro.

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Em conversa com um colega meu sobre o trabalho em Portugal acabei por relembrar-me de todas as experiências de trabalho e de quase-trabalho que vivi. Revezámo-nos a contar as nossas histórias, pessoais e de conhecidos, cada uma mais escabrosa do que a outra.

A minha primeira experiência de quase-trabalho em Portugal, quando ainda estava a terminar a licenciatura, foi numa empresa de telemarketing. Empresa é um termo lisonjeiro, eu chamaria àquilo um conjunto de salas num prédio manhoso com uns telefones e uns papéis com nomes e números de telefone listados.

Enviei o currículo porque, já na altura, conseguir resposta de uma empresa era algo raro. Eu queria um part-time para conjugar com a faculdade, e achava que conseguiria aguentar 4 horas por dia num sítio daqueles.

Fui à entrevista e fui selecionado. Tão simplesmente isto. O ordenado? Cerca de 300€ por mês e comissões das vendas. No dia seguinte deveria ir novamente ao escritório para ter “formação”. A “formação” era tão só uma mulher ditar-me um texto que eu deveria repetir a cada um dos “potenciais clientes” e deixar-me sozinho a ler uns panfletos publicitários de uma empresa de telecomunicações, durante uns minutos.

De seguida, uma curta apresentação aos atarefados colegas de telemarketing e ao meu lugar, ali disponível. Devia sentar-me e começar de imediato a ligar. Olhei à minha volta. Vi aquele sítio cinzento, aquela gente stressada, aquela monotonia da repetição pior que um tic tac de relógio. Passado 15 minutos de reflexão, sem fazer uma única chamada, saí. Disse que aquilo não era para mim, que era insuportável, e saí.

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