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Posts Tagged ‘Futebol’

Não se pretende fazer uma sociologia do génio futebolístico, mas construir, antes de mais, um pequeno comentário às teses do dom, e do natural talento para «jogar à bola».

Lembro-me de, numa das primeiras aulas do curso, uma professora minha ter feito um comentário paralelo à matéria em que demonstrava uma salutar irritação com os comentadores de um jogo de futebol. Ficou irritada não porque os comentadores estavam a ser parciais ou a dizer disparates sobre o jogo em si, mas porque não paravam de dizer que o Deco era “um génio”, “um talento”, que aquilo de jogar tão bem à bola lhe “estava no sangue”, ou pior, “nos genes”.

Quando o principiante em sociologia é «socializado» no combate aos obstáculos epistemológicos (a saber: naturalismo, etnocentrismo, e individualismo) acaba por se irritar, às vezes, com alguns discursos exteriores à ciência. O mesmo acontece com os sociólogos de profissão mais imbricados nas questões epistemológicas. Ora, o senso comum está recheado de discursos em que pululam noções naturalistas, etnocêntricas, ou individualizantes (no sentido em que explicam o social pelo individual) sobre a realidade social.

O caso da naturalização do génio da bola é paradigmático disso mesmo. Acreditará o leitor que as capacidades e performances do Cristiano Ronaldo (CR), o talento mais recente, lhe estão no sangue, nos genes, ou até, enfim, na combinação frutuosa e relativamente aleatória da cambalhota reprodutiva dos seus pais, que produziu um ser biologicamente formatado para jogar futebol?

E os contextos e trajectórias sociais do CR? As suas próprias escolhas ao longo da vida, que são sempre influenciadas socialmente, e que foram confrontadas com contextos e quadros de interacção específicos? E os momentos cruciais na vida que separam o sucesso do fracasso e que podem arruinar “talentos” de forma precoce? Descendo à esfera do conhecimento “real” sobre o nosso objecto, sabemos que o CR jogou futebol desde a infância e de forma bastante militante; sabemos que tinha familiares ligados ao futebol; sabemos que interiorizou uma ideologia de trabalho intenso em relação ao futebol, treinando mais do que os outros, fazendo “horas extras” no ginásio, etc. CR fez-se enquanto «génio da bola» ao longo de uma vida ligada ao futebol de forma quase exclusiva. Só este facto serve para chutar para canto a tese do dom.

CR é um caso singular, é certo. Vários atletas em condições idênticas não são “os melhores do mundo”. Mas uma singularidade não é fruto do divino, nem é fruto de um dom inato e natural. O sucesso, a grandeza, e o génio constroem-se em sociedade, e nos passos que nela se dão.

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