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Perdi um amigo. Perdi-o para uma doença, silenciosa e matreira, que o levou demasiado cedo. Também o perdi para a ignorância e a inoperância. O Carlos tinha Asperger. Depois veio a depressão, profunda, de certeza que era profunda. Afogou os seus fantasmas em uísque, apaziguou-os com comprimidos, e perdeu.

O síndrome de Asperger é uma forma de autismo que se caracteriza por dificuldades na interação social e comunicação não verbal. O Carlos era assim, não percebia sinais que todos percebemos, não sabia muito bem como se comportar numa normal situação social. Por isso era assim, calado, sossegado, introvertido, reservado. Às vezes inconveniente ou simplesmente estranho. Também tinha problemas dos quais talvez eu não saiba nem metade.

O Asperger era auto-diagnosticado. Ele não tinha ido ao médico nem procurado ajuda profissional. Ele era inteligente e tentava resolver os seus próprios problemas. Mas não era assim tão inteligente e encontra soluções estranhas para problemas simples do dia-a-dia. Descobrir ele próprio que era “aspie” foi fácil. Resolver a sua vida como “aspie” não.

Eu gostava do Carlos. Comunicávamos muito online, nos chats do facebook ou do gmail. Éramos diretos um com o outro. Dizíamos a verdade um ao outro de forma assertiva. Ao vivo era diferente, mas lá íamos beber um copo de vez em quando e falar de tudo e de nada.

O Carlos entrou num ciclo de auto-destruição que ninguém parou. Fumava muito. Bebia de forma anormal, chegando a beber uma garrafa de uísque numa noite. Auto-medicava-se com serotonina e sei lá mais o quê. Experimentou cocaína.

Nada resultou, claro. Um dia o Carlos despediu-se do seu emprego. Amigos e colegas de trabalho telefonaram-lhe a perguntar o que tinha acontecido. Foram a casa dele onde ouviram um simples “não me procurem mais”.  Voou para Portugal e foi encontrado morto na sua casa.

O Carlos lutou contra os seus fantasmas e era ele próprio um fantasma a maior parte do tempo. Tentou ser invisível para os outros porque não sabia como lidar com eles. Acabou, talvez, por decidir que o melhor era apagar a sua vida.

O Carlos era uma pessoa brilhante, com um futuro que poderia e deveria ter sido diferente se tivesse tido a ajuda certa ao longo da sua vida. Era bondoso e honesto. Foi campeão nacional sub-20 de xadrez em 2006/07. Nunca ninguém o percebeu ou ajudou verdadeiramente. E ninguém conseguiu parar a espiral negativa e vertiginosa em que um “aspie” com depressão e dependências acaba por entrar.

Escrevo este memorial para o relembrar e para aumentar a consciencialização que precisamos de ter sobre o síndrome de Asperger e a sua relação com a depressão e o suicídio.

Talvez o Carlos não quisesse ser lembrado mas não poderá ser esquecido. Como escreveu um seu amigo, “os momentos e memórias são imortais, como a mais bela partida de xadrez”.

Até sempre, Carlos.

Carlos André Ramalho Oliveira / 1987-2015

Carlos André Ramalho Oliveira / 1987-2015

Assunção Esteves e Simone de Beauvoir, um paralelismo cuja lógica nos é desconhecida, mas a verdade é que a primeira a citar a segunda me leva à escrita. Melhor, leva-me a questionar se a primeira sabe que se deve ponderar se metáforas são apropriadas ou não em situações de tensão e sobretudo, se a metáfora em si não é ofensiva e despropositada pelos termos utilizados. As mesmas palavras não servem para todos as ocasiões nem se aplicam os mesmos sentidos.

Carrasco é um exemplo disso. Preocupa-me também a interpretação da primeira à citação utilizada “Não podemos deixar que os nossos carrascos nos dêem maus costumes” (que Simone de Beauvoir utilizou para se referir à opressão nazi sobre a população francesa), pois afirma “Significa que quando as pessoas nos perturbam não devemos dar atenção”.

As pessoas que se queixam do penoso trabalho levado a cabo por este governo que apenas sufoca mais a população sem fazer cortes relevantes nas suas próprias mordomias são os incómodos e os chatos… Sim, liberdade de expressão e espírito crítico, que maçada… Vamos todos comer e calar, pois coitados, os deputados e o governo estão lá de tão boa vontade a ajudar todos nós… Acho que devíamos pedir desculpa por achar que o comboio está desgovernado e temermos pelo nosso próprio futuro… Acho que devíamos pedir desculpa e ser democráticos ao protestar e mostrar a nossa indignação de uma forma minimamente civilizada, já que tão bons exemplos há neste mundo de outras formas de protesto… Preocupa-me também esta atitude de ignorar que nos perturba… Vamos apenas andar em frente e ignorar tudo o que nos rodeia, ignorar a realidade e continuar.

Parece-me insensibilidade, na melhor das hipóteses.  A interpretação da citação também me suscita algumas dúvidas, já que me parece algo mais na linha de não agir de determinada forma por influência de austeras terceiras pessoas. Sendo assim, acho que se aplicaria mais ao contrário, já que o governo ficaria melhor nessa posição, pois maus costumes têm sido aquilo com que mais nos presenteiam, e não só nos perturbam como têm sido quase carrascos para todo este país.

Irónico, no mínimo.

Vazio de argumentos

Como referido no texto anterior, tenho um interesse renovado pela causa do ateísmo. Chamo-lhe causa porque parece evidente que temos de combater o mumbo jumbo que parece renascer numa era em que seria expectável, talvez, que a supertição e crendice fossem ultrapassadas. Nesse sentido, o ateísmo corre o risco de se tornar em algo que temos de “pregar”. Mas não temos de o “pregar” ou impingir, apenas zelar por uma sociedade laica e uma religião privada.  Sobre isto poderei extender-me noutro texto.

Dei por mim a debater sobre religião na plataforma pouco aconselhável que é o youtube. Perguntei a um fanático religioso, daqueles que cita a Bíblia como se fosse tão exacta como a tabela periódica, algo muito simples: concedendo que Jesus Cristo existiu, que ocorreram milagres, e que toda a informação da Bíblia é verdadeira, como é que isso prova que Deus, ou outra qualquer entidade sobrenatural, existe?

Fiquei sem resposta, e ao longo dos demasiados comentários que se seguiram apenas vi manobras de diversão escapatórias.

Assim ficam os teístas, segurando um saco vazio de argumentos.

Frequentemente dou comigo a dormir acordado, fora do mundo, pensativo, ausente. Não consigo evitar, contudo, de estar alerta para o que me rodeia, o que me cerca. Essa mesma ausência apenas contrapõe o meu estado natural de alerta, de atento, de curioso. Sempre achei fundamental ter um tempo para pensar no dia, na vida, no mundo, para evitar precisamente ser ludibriado, conduzido, manipulado, graças aos pequenos problemas que nos distraem dos demais. Acredito também que faço ao contexto actual, todos estão a ser forçados a acordar. Todos têm de acordar e ver que sempre foram enganados, conduzidos, manipulados por um sistema que se auto-reproduz nas suas elites, que se alimentam de todo o resto para favorecer os mais próximos deles, a todos os níveis. Sempre os mesmos beneficiados, sempre os mesmos favorecidos, e nós a pagarmos a factura. Sempre o mesmo engodo e sempre caímos nalgumas mentiras ou falsas promessas, votando constantemente no mesmo corpo governativo e na mesma oposição, colaborando na sua própria corrupção por não exigirmos convenientemente que se retratassem e fossem julgados como criminosos que são. Assim, anos e anos de favorecimentos, de enriquecimentos, continuam, apesar da crise, pelas privatizações e outros negócios. Agora sabemos mais, a informação está por ai, pois a massificação da internet e das fontes de informação assim o permitem, associando uma enorme vontade de finalmente revelar as razões do nosso empobrecimento e dos erros do próprio país, para mais uma vez estarmos reféns de uma ajuda externa asfixiante. As multidões vão acordando, vão se manifestando, reclamando os seus direitos que agora a todos se agudizam pela falta de dinheiro que outrora tiveram, pela falta dos bens materiais aos quais se acostumaram, e nos casos mais graves, pela falta de comida que sempre os saciou. Agora que o fogo na alma colectiva aumenta, com as constantes achas que outrora desconhecíamos, os segredos vão sendo revelados e espero que sejam todos revelados, senão na televisão, na internet, pois não mais podemos dormir nem cair nos engodos, não podemos cair no sono do conforto material e da vida com algumas regalias, pois é certo que muito nos continuará a ser retirado, dessa forma, se não formos politica e civicamente conscientes, vamos ser conduzidos a algo semelhante novamente, se o material confortar a nossa própria barriga e se só isso importar, face à nossa inexistente exigência tudo permanecera igual.

Há ateus e ateus

O ateísmo é considerado, pelos teístas, como uma total ausência de crença, um vazio, uma nuvem de nada. Os ateus seriam então seres desapaixonados, moralmente nulos, sem uma verdadeira razão para viver. Seres menos felizes e sem luz na sua vida, para usar uma expressão mística.

As assunções anteriores são obviamente um disparate.

Contudo, há ateus e ateus. Existem ateus que, como eu, simplesmente compreendem e aceitam o facto de que não existe qualquer entidade comummente designada por deus. Outros há que militam apaixonadamente na causa do ateísmo e combatem ferozmente todos as dimensões possíveis das crenças e das religiões.

Numa dimensão à parte está Cristopher Hitchens. Este autor fez-me redescobrir o interesse pela causa do ateísmo, pela militância contra a estupidez estupidificante da religião e pela necessidade de combater os embustes que a crença no divino potencia. E que vida rica e plena teve Hitchens. E o quão interessante é a sua obra literária, todos os registos vídeo e áudio dos inúmeros debates que teve com outros tantos inúmeros crentes. Sempre tão claro e incisivo, sempre um antídoto ao veneno da religião.

Hitchens fará parte das minhas leituras nas férias do Natal. E o quão delicioso será ler finalmente o seu “God is not great” nesta altura do ano.

Vai-se indo, vai-se andando, a típica frase portuguesa que define a sua própria vida. Sempre bastante conformados com o desenrolar da sua vida, vão navegando enquanto fazem figas para que os ventos sejam  bons e os levam a bom porto. Caracteristicamente deixam se levar com medo da mudança, mesmo sabendo que são prejudicados, mesmo sabendo que uma mudança é necessária para que as suas vidas melhorem. Contudo, agarram-se a uma ideia utópica de que algo acontecerá e tudo resolverá, acreditando na solução mágica e milagrosa tirada do chapéu dum mágico benfeitor que não está à vista. Este vai-se indo, sem mudar, só andando, com medo, não querendo mudar mesmo sabendo das vantagens inerentes. O negativismo e receio lusitano carrega todo o cenário no qual a transformação é a única solução. Hoje constatamos isso, sempre criticamos a classe política que elegemos, para futuramente grande parte votar de novo nos mesmos, por medo do que a mudança pode trazer. Vamos andando, vamos indo, porque no fundo faltamos a coragem para alterar o que está mal, para ficar bem. Vamos andando, vamos indo, porque carregamos os sonhos, os desejos de algo mais, ter algo mais, a ambição de crescer, de uma outra vida que mais nos satisfaça. Frequentemente cobiçamos o alheio, sem fazer o máximo do que já temos. Vamos andando, a vida é cinzenta para nós porque somos desanimados por natureza. Achamos sempre que a vida está pior do que está e nos falta o ânimo para aproveitar ao máximo. Vamos andando, porque não encontramos bem os nossos próprios problemas, ou porque não os temos ou porque são profundos e não mexemos nele. A verdade é que esta noção de deixarmos andar, de deixar ir ao sabor do vento, a nossa inacção na vida e rejeição de tomar as rédeas na mesma levamos a sonhos curtos e ao desanimo em geral, crescendo o sentimento de impotência quando na verdade decidimos e optamos para conseguir mudar, até na política com um mero voto, apenas não podemos ter medo da decisão de mudar, pois se for informada, essa decisão será certamente pelo melhor, porque nunca nada será totalmente bom e perfeito, apenas melhor para nós.

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O Sociologando tem um novo blogger e já escreveu o seu primeiro post. Bem-vindo Tiago!

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