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Archive for the ‘Ego’ Category

Sociologando (2)

Desculpas, desculpas e mais desculpas aos leitores. Parei de escrever no blogue, primeiro por falta de tempo, e depois por falta de vontade e inspiração.

Primeiro, devo falar do estágio que fiz, e que entretanto terminou. Óptima experiência a todos os níveis, que me permitiu conhecer por dentro uma empresa importante no nosso país. O meu trabalho era fundamentalmente administrativo: tratar de papelada, atender telefones, gerir algumas bases de dados, etc. Mas também teve uma forte componente humana, bem mais difícil de gerir: participei em alguns momentos de recrutamento e selecção de pessoas, e tive de apoiar a coordenação de um processo de formação.

Quanto ao Sociologando, devo dizer-vos que tenho procurado novos colaboradores para o blogue, e espero que em breve esteja mais gente a escrever nesta plataforma.

Espero também escrever alguns textos relacionados com a tese que estou a fazer, entre outras coisas.

Voltarei a escrever em breve.

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A partir da próxima sexta-feira, 11 de Julho de 2008, estarei a estagiar numa empresa de seguros. É a minha primeira experiência de trabalho “a sério”, e vai durar cerca de três meses. Ainda não sei descrever ao pormenor o conteúdo do meu trabalho, mas julgo que se inscreverá principalmente na análise interna, com colaborações pontuais no departamento de recursos humanos.

Uma das questões colocadas na entrevista de selecção foi muito simples. “Para que serve a Sociologia?” A resposta não é nada evidente. Ainda menos quando queremos fazer valer a nossa utilidade face a um empregador. Esta dificuldade em responder a uma pergunta tão simples deve-se a uma incapacidade de afirmação da Sociologia na Sociedade em geral e, particularmente, no mainstream do tecido empresarial, que é dominado pelas linguagens e saberes técnicos. O Sociólogo só pode singrar numa empresa se se apropriar dessas linguagens e saberes, tendo como valência extra os seus conhecimentos e capacidades enquanto especialista numa ciência particular, que lhe conferem uma visão/perspectiva da realidade igualmente particular. Mas não é só a Sociedade e as Empresas que falham ao não reconhecerem a Sociologia e os Sociólogos como úteis. Falham também as universidades, que insistem em produzir sociólogos-investigadores, fazedores de projectos, académicos e intelectuais, stricto senso, e se coíbem em criar sociólogos-técnicos capazes de colaborar nas empresas, e de mobilizar análises técnico-instrumentais em prol delas. Em última análise, falham também os próprios licenciados em Sociologia que não podem descurar formações complementares noutros domínios, e lhes poderão abrir portas para outras áreas profissionais.

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image_caminho.jpgQuando penso sobre o debate da rapariga, do seu telemóvel, e da “crise” da escola, dá-me vontade de pensar retrospectivamente o meu percurso na escola, e fazer aquilo que os sociólogos chamam comummente de análise reflexiva das condições e circunstâncias que me afectaram nesse percurso. Uma análise sociológica sobre o ego, portanto. Giddens chamar-lhe-ia de reflexividade e Bourdieu de auto-sócio-análise.

Começar uma análise deste género implica ir ao início do percurso escolar, em que as circunstâncias da vida social, e a influência dos outros (família, por exemplo), afectam as crianças sem que elas tenham real capacidade de decisão.

A escola primária começou sendo eu um menino tímido, mas completamente aberto à cultura escolar. Lembro-me de ser preguiçoso e de às vezes pedir à minha mãe para escrever à professora para me dispensar dos trabalhos de casa. A desculpa era sempre as “dores de cabeça”. A minha mãe fazia-o, tal era a minha insistência e preguiça. Um dia a professora estranhou, e o engodo ficou por ali. No entanto, muitas vezes fazia trabalhos de casa extra, quando, e sobre o que, me interessava (pois claro!) e fazia-o somente pelo desejo de aprovação e de ter sanções positivas da professora, a Dª Armandina, que carinhosamente sorria, abanava a cabeça em sinal de satisfação, e nos dava dizia “muito bem”. Eu era um dos melhores alunos, entre o pequeno grupo dos melhores. O meu grupo restrito de amigos também correspondia a esta elite de “meninos da professora”, que nunca levavam reguadas, que nunca chegavam atrasados, que nunca faltavam com os trabalhos de casa (a não ser por causa das dores de cabeça), e que tiravam sempre os “satisfaz muito bem” ou “satisfaz plenamente”. Depois havia os outros, os meninos do bairro e das casas pobres, mas nem todos daí: o Chico, o Escaravelho, o Manique, o Nando, o Bruno, e aquele gajo de que me esqueci do nome, mas que agora está preso. Havia também a Susana, que era repetente, e estranhamente madura, e que me escrevia poemas com beijos, água, melancia, carícia e cachoeira como palavras-chave, se tais escritos fossem posts em blogues, ou noutro sítio qualquer.

A escola primária passou por mim de forma quase idílica, mas que sociologicamente talvez fosse improvável. Eu, filho de um operário e de uma dona de casa, com parcos recursos económicos e culturais, seria facilmente arrumado no grupo dos medianos ou piores alunos, se apenas nos restringíssemos a analisar essas variáveis. O meu melhor amigo, o Nuno, tinha uma casa grande, e notava-se (aos olhos de um menino com 6, 7, 8, ou 9 anos) que os seus pais falavam de uma maneira diferente, portavam-se de uma maneira diferente, e tinham uma profissão diferente da que os meus pais tinham. A posição e o comportamento na escola estavam correlacionados com a origem social daqueles miúdos de forma absolutamente notável, sendo eu, e talvez poucos mais, ligeiras excepções à tendência dominante.

No meu ponto de vista, a explicação para o meu “anormal” bom desempenho na escola nesta altura é possível se olhar para a minha socialização fora da família. De facto, todos os dias, e já antes da escola primária, ia com a minha mãe para o seu trabalho de doméstica na casa de uns senhores que eram bancários. Com o filho deles, substancialmente mais velho que eu, aprendi a jogar xadrez e damas, a mexer em computadores, a ter interesse pela leitura, aprendi inconscientemente a falar de outra maneira, e ouvi coisas diferentes do que ouviria nos circuitos sociais a que estaria destinado pela minha família. Aprendi a jogar ténis, subi ao castanheiro da casa, brinquei e tratei dos cães, atazanei os gatos. Bisbilhotei os livros, os cachimbos, o soro fisiológico do senhor Serafim, e as suas gravatas. Comi queijo e chocolates “after eight”. Vivi algo improvável. Fui educado por uma nova instância socializadora, que julgo ter tido enorme influência em mim.

No 5º ano, nova escola, turma temível. O quinto Q. É ligeiramente especulativo o que vou escrever, mas disseram-me que o Pedro Abrantes, num trabalho recente, efectivou cientificamente a minha especulação. As turmas são muitas vezes criadas em função da origem social dos alunos e/ou pelos seus resultados escolares anteriores e/ou por outros factores que agregam os melhores numas turmas, e os piores noutras. As turmas A são as melhores, e o “nível” vai descendo em proporção inversa ao andamento do alfabeto. A verdade é que o Q daquele 5º ano tinha todos os piores alunos, que eram piores não só nos resultados escolares, mas também no comportamento. Lastimáveis acontecimentos: porrada em doses fortes, faltas de educação, o chamar bicha ao João Paulo, entre tantas outras coisas, que resultavam sempre em castigos colectivos, quando os protagonistas eram, e pasme-se, os meninos de uma associação de apoio à criança que abrigava os filhos de pessoas que não tinham possibilidades económicas para os “manter”. Este “manter” é tão só alimentar e vestir.

O temível 5º Q dissolveu-se por várias turmas. O 6º ano foi mais saudável ao nível escolar.

A mudança para uma escola secundária agravou o confronto com a heterogeneidade social, quando juntou às diferenças sociais e classistas, e logo, culturais e comportamentais, as diferenças de idade, e as dinâmicas que daí advêm. A complexidade de uma Escola, e até das dinâmicas dentro de uma turma, são imensas, pelo que vou retratar apenas alguns aspectos.

O meu grupo de colegas e amigos, do 7º ao 9º ano, era composto por todos os rapazes da turma, sem excepção. Existia uma nitidez sociológica tão explícita naquele grupo, com os seus líderes legitimamente consagrados, visto que eram eles os mais dotados de recursos valorizados no seio do grupo (e antagónicos aos recursos sociais valorizados pela Escola enquanto instituição), com as suas regras e condutas bem determinadas, e os centros de poder colocados na liderança partilhada de duas pessoas, havendo depois uma extensa “plebe” de subordinados um pouquinho hierarquizados e diferenciados, que seria impossível não a referir. A coesão do grupo mantinha-se com muita violência simbólica e física.

Este grupo é importante porque se constrói dentro da Escola, mas sempre com valores e regras alternativos aos dela. Os resultados escolares nunca foram valorizados. O bom comportamento dentro da sala de aula idem. A dinâmica grupal entrava na sala de aula e apoderava-se dela em certas alturas. Conversava-se, gozava-se, ria-se mais dentro da sala de aula do que fora dela. Eles, os líderes, mais velhos, mais fortes, mais dotados, lá atrás na sala, dominavam quem estava à frente a dar a aula. Porque quem estava a ensinar ensinava menos. Os outros alunos eram prejudicados por eles, especialmente os da “plebe”, e nunca nenhum professor conseguiu acabar com isto.

Recordo algo que me marcou negativamente. Estava na moda uma “brincadeira” de socos nas costas, que eram dados com os «nós dos dedos». Doía, pois claro. Mas pior do que a dor era a incerteza de não saber quando é que surgia o próximo soco. Isto ocorria nas aulas, sempre nas aulas. Imaginem o que são aulas dominadas pela conversa, pelas “brincadeiras” de socos, e pelo consequente total alheamento da aula em si. Dir-me-ão que podia ter combatido isto, mas não era fácil. Porque a integração no grupo acarretava tudo: o bom e o mau. Não eram meus inimigos. Eram os meus colegas. Seria bom que este agora chamado bullying fosse feito por inimigos. Mas não. Era levado a cabo pelos mesmos que me quiseram para jogar na final do torneio de futebol, que passavam grande parte do tempo comigo, e com os quais passei bons tempos, apesar de tudo.

É escusado dizer que com todas estas intempéries que se passaram, que se passam (cada vez mais?) na Escola de hoje, e que são incontroláveis (até ver…), o meu rendimento escolar foi decrescendo, e estabilizou no limite aceitável do “passar de ano”. A Escola ofereceu sempre muito mais do que “matéria” e “notas”, e é suposto que assim seja, só que ela não se pode deixar engolir por estas dinâmicas. Não pode deixar que a sua função principal de educação e transmissão de conhecimentos seja abafada desta maneira.

Julgo que com estas reflexões, longas para post, mas curtas em relação ao que eu poderia continuar a escrever, se denotam dois aspectos. O primeiro é o da inscrição da Sociedade na Escola, e a reprodução social que ainda subsiste. O segundo é a mistura que se faz entre este social anterior e paralelo à escola (mas que se inscreve nela), e as dinâmicas que nascem dentro dela, e que muitas vezes criam lógicas contrárias aos seus objectivos institucionais. Julgo que para qualquer debate sobre a Escola é preciso este tipo de reflexão.

O texto vai longo. Demasiado longo. Se fizer sentido para vocês, digam qualquer coisinha, sim?

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