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Archive for Junho, 2008

Coisas da Sociologia

Tenho lido o Socio[B]logue 2.0, e encontrado textos muitos interessantes. O blogue está parado desde 2003. Cinco anos: uma eternidade em tempo blogosférico. Ainda assim encontrei-o, li-o, e gostei.

Aqui fica um dos textos publicados pelo João Nogueira.

A Omnipresença do Olhar: Do Olhar Clínico ao Olhar Sociológico (act)

A partir dos trabalhos de Michel Foucault (1963) e de alguns autores pós-foucauldianos – a expressão não é a melhor, bem sei – sobre a medicina nas sociedades contemporâneas, generalizou-se, na literatura sociológica e historiográfica, o uso das expressões «le regard clinical» ou «le regard médical» – o olhar clínico. Penso, designadamente no trabalho de autores como Bryan S. Turner (1992, 1995), Deborah Lupton (1994), David Armstrong (1994), Paul Atkinson (1995) ou Nick Fox (1993) [consultar adicionalmente os interessantes volumes colectivos organizados por Colin Jones e Roy Porter (1994) e, pouco depois, por Alan Petersen e Robin Bunton (1997)].

Essas expressões são utilizadas, amiúde, com o propósito analítico de desmontar o dispositivo exegético bio-médico que permite o diagnóstico a partir de sintomas superficiais e irrelevantes. De acordo com essa literatura, esse olhar é, sobretudo, um olhar “objectificante”. Um olhar que codifica os corpos e os reduz a objectos de observação.

O olhar sociológico não é diferente. Primeiro estranha-se. Depois, lentamente, entranha-se. E não é pouco. Onde eu via vizinhos, vejo hoje “relações sociais de vicinato”. Onde eu observava ricos e pobres, observo hoje “sistemas e estruturas de classe” e “grupos de status”. As conversas sobre afectos transformaram-se em “discursos da conjugalidade e de sexualidade”. Para onde quer que olhe vejo uma realidade codificada: campos, sistemas, esferas, actores, sujeitos, agentes, discursos, narrativas, economias de bens simbólicos, etc. Enfim, uma construção sociológica da realidade: uma matriz de (re)interpretação dessa realidade.

E não é, advirto, apenas uma mera questão de substituição de “expressões”. Longe disso. Sempre que entro no metro entretenho-me a analisar as “estruturas proxémicas e quinésicas” dos passageiros e a desconstruir os seus “projectos de corporeidade”. Quando participo em conversas dedico-me a desmontar as “para-linguagens” e o uso de “recursos seguros” por parte dos meus interlocutores. São disposições incorporadas. Faço-o “automaticamente” e sem uma intenção deliberada de o fazer. E é nesses momentos que o meu superego sociológico – sim, ele existe – começa a actuar forçando a reflexividade sobre as minhas acções… É então que me ponho a pensar que este olhar não é menos objectificante que o olhar clínico e me apercebo das (muitas) similitudes entre os dois dispositivos exegéticos.

Este “olhar” é, ademais, quase omnipresente… e reflexivo (ou auto-reflexivo). Daí que produza, com inusitada frequência, textos como este em que desconstruo o “olhar sociológico” recorrendo, para o fazer, ao meu “olhar sociológico”. Enfim, são, como diria Raymond Boudon, os “efeitos perversos” do meu processo de incorporação da sociologia.

Armstrong, David (1994), «Bodies of Knowledge/ Knowledge of Bodies», in Colin Jones e Roy Porter (eds.) (1994), Foucault: Power, Medicine and the Body, London: Routledge.
Atkinson, Paul (1995), Medical Talk and Medical Work: The Liturgy of the Clinic, London: Sage Publications.
Foucault, Michel (1963 [1993]), Naissance de la Clinique, Paris: Quadrige/ PUF .
Fox, Nick (1993), Postmodernism, Sociology and Health, Buckingham: Open University Press.
Jones, Colin e Roy Porter (eds.) (1994), Foucault: Power, Medicine and the Body, London: Routledge.
Lupton, Deborah (1994), Medicine as Culture: Illness, Disease and the Body in Western Societies, Londres: Sage Publications.
Petersen, Alan e Robin Bunton (eds.) (1997), Foucault, Health and Medicine, London: Routledge.
Turner, Bryan S. (1992), Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology, London: Routledge.
Turner, Bryan S. (1995), Medical Power and Social Knowledge, London: Sage Publications.

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Tenho reparado em alguns “confrontos” entre portugueses e brasileiros na Internet. Basta fazer umas pesquisas pelo youtube e ver os comentários e diálogos que se geram entre pessoas das duas nacionalidades. Também temos um bom exemplo se acedermos a alguns fóruns, blogues, ou chats. No fundo, qualquer plataforma que permita a troca de palavras entre portugueses e brasileiros é um bom local para encontrar racismo, ódio, e preconceito.

Os estereótipos são as principais armas de arremesso. Os portugueses são burros e velhos. Um povo racista e pouco humilde. As portuguesas são feias, gordas, têm bigode, e corrimento vaginal (esta pérola anda por aí). Os brasileiros são burros e atrasados. Um povo miserável que só liga ao samba e ao Carnaval. As brasileiras são prostitutas.

Os povos irmãos odeiam-se. Como dois bons irmãos, pois claro.

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A génese da modernidade ocidental situa-se nas transformações sociais ocorridas no século XVIII. Os marcos históricos da modernidade – o Iluminismo, a Rev. Industrial, a Rev. Francesa – são essenciais para percebermos uma Nova Era que nascia sob o auspício da racionalidade e da reflexividade.

Com o advento da modernidade surgiu a crença no declínio da religião. Este vaticínio ocorreu não só nos diversos campos das sociedades ocidentais, mas também, e em particular, no campo académico, e veio enformar o próprio conhecimento sociológico emergente. De facto, no século XVIII, muitas leituras da realidade implicavam uma oposição entre a modernidade (e a multiplicidade de questões que ela constitui) e a religião.

A modernidade toma o indivíduo como o seu “actor principal”. O ser humano racional substitui, em grande medida, a centralidade precedente do “cosmos sagrado”, que era gerido por instituições religiosas responsáveis, ao longo de vários séculos, pela coesão social e cultural. A ideia de que a religião deixa de ser a única instituição a cuidar da coesão social, assim como a noção de que ela perde o monopólio da produção de sentido, torna-se comum. A realidade já não se ordena sob o dossel sagrado da religião. A religião autonomiza-se num campo social específico, e parece perder o seu ascendente sobre os diferentes níveis societais do mundo moderno, ainda que mantendo importantes níveis de influência e de intercepção com os diversos campos sociais.

Neste sentido, o termo «secularização» surge na teoria sociológica como conceito, teoria, ou paradigma (este é outro debate) a partir dos anos 60. É certo que com a modernidade surgiram as teses do declínio ou extinção da religião, mas o processo da secularização só se operacionalizou na teoria sociológica durante o decorrer da segunda metade do século XX.

Thomas Luckmann introduziu o conceito de diferenciação ou segmentação institucional. O autor considera que com a modernidade emergiram subsistemas sociais com um grau de autonomia relativo, e que, deste modo, também a religião se autonomizou numa esfera social autónoma. Uma das consequências da segmentação institucional será a privatização da religiosidade.

Os autores da secularização consideram que a modernidade acarreta o enfraquecimento da dimensão institucional da religião, e a sua privatização. Os ligames sociais e culturais de cariz religioso, que foram consistentes durante séculos, desgastam-se, e as instituições religiosas perdem o seu poder. Os indivíduos sentem-se livres para encontrar, de forma autónoma e reflectida, o seu próprio universo de significações diante de um mundo fragmentado (um “mundo de mosaicos”). Assim, a própria multiplicidade de movimentos religiosos na actualidade, e os trajectos individuais de pessoas de diferentes grupos religiosos que se cruzam, são o reflexo desta secularização. A fragmentação religiosa e o seu “mercado aberto”, herético, e sincrético, é um espelho dessa perda de influência da religião, e sinónimo do que se chama de processo de secularização.

Para Peter Berger, a secularização reflecte-se enquanto processo marcado pela emancipação das representações colectivas em relação às referências religiosas. Isto representa uma clara ruptura com a função tradicional da religião, que era precisamente a de estabelecer um conjunto integrado de definições de realidade que pudesse servir como um universo de significado comum aos membros de uma sociedade. A religião deixa de ser um “sacred canopy” (dossel sagrado) para sociedade.

Bryan Wilson desenvolve uma perspectiva evolucionista das mudanças estruturais operadas no campo religioso. Ele segue uma perspectiva inspirada em Weber. Este autor estabelece uma proximidade entre a secularização e a racionalização. As tecnologias levam à racionalização da vida em sociedade, e contribuem para o “desencantamento do mundo”. A diferenciação e a autonomização aparecem-nos como consequências dessa racionalização e constituem os conceitos base da secularização. Para este autor é muito importante a noção da passagem da “comunidade” para a “sociedade”, assim como as mudanças nas relações sociais implicadas nessa mesma passagem.

Deste modo, nas sociedade modernas a religião tem vindo a enfraquecer e a tornar-se mais periférica. Mas também ressurge: diferenciando-se e segmentando-se; moldando-se a novos quadros de valores e modos de viver o religioso; e (sobre)vivendo à intempérie das mudanças sociais mais recentes.

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Vale a pena ler o que se vai escrevendo por aqui acerca da subida persistente do preço do petróleo, e do papel que especulação tem no preço final.

A ler estes dois textos (este, e este), e os que se seguirão.

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Tribo indígena

Foi descoberta uma tribo indígena na Amazónia. A tribo foi fotografada a partir de um avião, e os seus membros reagiram ao “monstro voador” disparando flechas e lanças. É das últimas tribos perdidas nesta região do nosso planeta.

Devemos contactá-los, estudá-los, e, inevitavelmente, mudá-los? Ou deixá-los em paz, simplesmente?

(Imagem via lugar do conhecimento)

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