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Archive for Março, 2008

No Expresso:

209-030_large.jpgO Instituto Nacional de Estatística revelou hoje que, em média, cada agregado familiar tem um rendimento anual líquido de €22.136. Uma verba que representa €1.845 por mês e onde quase metade é gasto em alimentação e habitação.

As famílias portuguesas gastam quase metade do seu rendimento mensal líquido de €1.845 na habitação, água, electricidade, combustíveis e alimentação. São cerca de 42% do total que mensalmente são usados com este fim. É uma das principais conclusões do Inquérito aos Orçamentos Familiares que o Instituto Nacional de Estatística realiza a cada cinco anos e que hoje foi divulgado. Os números, referentes ao período entre Outubro de 2005 e Outubro de 2006, revelam que, em média, cada agregado familiar vive com um rendimento anual de €22.136.

Desde 2000, o ano do último inquérito, os gastos com a habitação, água, electricidade, gás e outros combustíveis foram a rubrica que mais cresceu na despesa das famílias. Há oito anos, consumiam apenas 19,8% do rendimento, em 2006 levavam 26,6%. Pelo contrário, a alimentação e as bebidas não alcoólicas continuaram a perder peso ao longo deste período, embora representem a segunda maior fatia com 15,5% do total.

“Existem três tipos de mentiras: as pequenas mentiras, as grandes mentiras, e as estatísticas”. A Média, essa malandra!

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O suicídio e o clima

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Um estudo efectuado na Área Metropolitana do Porto sugere que o clima tem algum peso na ocorrência de tentativas de suicídio. Passo a citar parte dos resultados preliminares:

(…) Apesar das condicionantes psicológicas, sociais, e económicas, terem, em proporção, um peso muito superior às de natureza climatológica, parece haver, na distribuição de tentativas de suicídio que recorreram às urgências do Hospital S. João (Porto) uma sazonalidade que confirma a hipótese deste gesto ser encorajado pela matriz climatológica vivida no própria dia e nos imediatamente anteriores. (…) Não serão, portanto, os dias especialmente quentes ou frios, os mais secos ou aqueles em que ocorre maior precipitação, os que concorrem para a tomada de decisão. Esta parece reforçar-se quando a variabilidade térmica é grande, em curtos períodos, ou quando o “estado do tempo” é inesperado para o momento do ano. (…) (pág. 68 )

As ciências partilham objectos de estudo. Elas partem da sua abordagem disciplinar específica e gladiam-se pela melhor explicação dos fenómenos. Faz parte do campo académico. Confiro toda a legitimidade a que se faça qualquer tipo de estudo, só que neste caso, e apesar de a linguagem utilizada na explanação dos resultados preliminares do estudo ser muito cuidadosa, não encontro lógica nele. Não poderia ser de outra maneira. A abordagem climatológica é esmagada pelas abordagens da psicologia, psiquiatria, sociologia, etc. Talvez o clima tenha peso no suicídio: peso pluma.

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image_caminho.jpgQuando penso sobre o debate da rapariga, do seu telemóvel, e da “crise” da escola, dá-me vontade de pensar retrospectivamente o meu percurso na escola, e fazer aquilo que os sociólogos chamam comummente de análise reflexiva das condições e circunstâncias que me afectaram nesse percurso. Uma análise sociológica sobre o ego, portanto. Giddens chamar-lhe-ia de reflexividade e Bourdieu de auto-sócio-análise.

Começar uma análise deste género implica ir ao início do percurso escolar, em que as circunstâncias da vida social, e a influência dos outros (família, por exemplo), afectam as crianças sem que elas tenham real capacidade de decisão.

A escola primária começou sendo eu um menino tímido, mas completamente aberto à cultura escolar. Lembro-me de ser preguiçoso e de às vezes pedir à minha mãe para escrever à professora para me dispensar dos trabalhos de casa. A desculpa era sempre as “dores de cabeça”. A minha mãe fazia-o, tal era a minha insistência e preguiça. Um dia a professora estranhou, e o engodo ficou por ali. No entanto, muitas vezes fazia trabalhos de casa extra, quando, e sobre o que, me interessava (pois claro!) e fazia-o somente pelo desejo de aprovação e de ter sanções positivas da professora, a Dª Armandina, que carinhosamente sorria, abanava a cabeça em sinal de satisfação, e nos dava dizia “muito bem”. Eu era um dos melhores alunos, entre o pequeno grupo dos melhores. O meu grupo restrito de amigos também correspondia a esta elite de “meninos da professora”, que nunca levavam reguadas, que nunca chegavam atrasados, que nunca faltavam com os trabalhos de casa (a não ser por causa das dores de cabeça), e que tiravam sempre os “satisfaz muito bem” ou “satisfaz plenamente”. Depois havia os outros, os meninos do bairro e das casas pobres, mas nem todos daí: o Chico, o Escaravelho, o Manique, o Nando, o Bruno, e aquele gajo de que me esqueci do nome, mas que agora está preso. Havia também a Susana, que era repetente, e estranhamente madura, e que me escrevia poemas com beijos, água, melancia, carícia e cachoeira como palavras-chave, se tais escritos fossem posts em blogues, ou noutro sítio qualquer.

A escola primária passou por mim de forma quase idílica, mas que sociologicamente talvez fosse improvável. Eu, filho de um operário e de uma dona de casa, com parcos recursos económicos e culturais, seria facilmente arrumado no grupo dos medianos ou piores alunos, se apenas nos restringíssemos a analisar essas variáveis. O meu melhor amigo, o Nuno, tinha uma casa grande, e notava-se (aos olhos de um menino com 6, 7, 8, ou 9 anos) que os seus pais falavam de uma maneira diferente, portavam-se de uma maneira diferente, e tinham uma profissão diferente da que os meus pais tinham. A posição e o comportamento na escola estavam correlacionados com a origem social daqueles miúdos de forma absolutamente notável, sendo eu, e talvez poucos mais, ligeiras excepções à tendência dominante.

No meu ponto de vista, a explicação para o meu “anormal” bom desempenho na escola nesta altura é possível se olhar para a minha socialização fora da família. De facto, todos os dias, e já antes da escola primária, ia com a minha mãe para o seu trabalho de doméstica na casa de uns senhores que eram bancários. Com o filho deles, substancialmente mais velho que eu, aprendi a jogar xadrez e damas, a mexer em computadores, a ter interesse pela leitura, aprendi inconscientemente a falar de outra maneira, e ouvi coisas diferentes do que ouviria nos circuitos sociais a que estaria destinado pela minha família. Aprendi a jogar ténis, subi ao castanheiro da casa, brinquei e tratei dos cães, atazanei os gatos. Bisbilhotei os livros, os cachimbos, o soro fisiológico do senhor Serafim, e as suas gravatas. Comi queijo e chocolates “after eight”. Vivi algo improvável. Fui educado por uma nova instância socializadora, que julgo ter tido enorme influência em mim.

No 5º ano, nova escola, turma temível. O quinto Q. É ligeiramente especulativo o que vou escrever, mas disseram-me que o Pedro Abrantes, num trabalho recente, efectivou cientificamente a minha especulação. As turmas são muitas vezes criadas em função da origem social dos alunos e/ou pelos seus resultados escolares anteriores e/ou por outros factores que agregam os melhores numas turmas, e os piores noutras. As turmas A são as melhores, e o “nível” vai descendo em proporção inversa ao andamento do alfabeto. A verdade é que o Q daquele 5º ano tinha todos os piores alunos, que eram piores não só nos resultados escolares, mas também no comportamento. Lastimáveis acontecimentos: porrada em doses fortes, faltas de educação, o chamar bicha ao João Paulo, entre tantas outras coisas, que resultavam sempre em castigos colectivos, quando os protagonistas eram, e pasme-se, os meninos de uma associação de apoio à criança que abrigava os filhos de pessoas que não tinham possibilidades económicas para os “manter”. Este “manter” é tão só alimentar e vestir.

O temível 5º Q dissolveu-se por várias turmas. O 6º ano foi mais saudável ao nível escolar.

A mudança para uma escola secundária agravou o confronto com a heterogeneidade social, quando juntou às diferenças sociais e classistas, e logo, culturais e comportamentais, as diferenças de idade, e as dinâmicas que daí advêm. A complexidade de uma Escola, e até das dinâmicas dentro de uma turma, são imensas, pelo que vou retratar apenas alguns aspectos.

O meu grupo de colegas e amigos, do 7º ao 9º ano, era composto por todos os rapazes da turma, sem excepção. Existia uma nitidez sociológica tão explícita naquele grupo, com os seus líderes legitimamente consagrados, visto que eram eles os mais dotados de recursos valorizados no seio do grupo (e antagónicos aos recursos sociais valorizados pela Escola enquanto instituição), com as suas regras e condutas bem determinadas, e os centros de poder colocados na liderança partilhada de duas pessoas, havendo depois uma extensa “plebe” de subordinados um pouquinho hierarquizados e diferenciados, que seria impossível não a referir. A coesão do grupo mantinha-se com muita violência simbólica e física.

Este grupo é importante porque se constrói dentro da Escola, mas sempre com valores e regras alternativos aos dela. Os resultados escolares nunca foram valorizados. O bom comportamento dentro da sala de aula idem. A dinâmica grupal entrava na sala de aula e apoderava-se dela em certas alturas. Conversava-se, gozava-se, ria-se mais dentro da sala de aula do que fora dela. Eles, os líderes, mais velhos, mais fortes, mais dotados, lá atrás na sala, dominavam quem estava à frente a dar a aula. Porque quem estava a ensinar ensinava menos. Os outros alunos eram prejudicados por eles, especialmente os da “plebe”, e nunca nenhum professor conseguiu acabar com isto.

Recordo algo que me marcou negativamente. Estava na moda uma “brincadeira” de socos nas costas, que eram dados com os «nós dos dedos». Doía, pois claro. Mas pior do que a dor era a incerteza de não saber quando é que surgia o próximo soco. Isto ocorria nas aulas, sempre nas aulas. Imaginem o que são aulas dominadas pela conversa, pelas “brincadeiras” de socos, e pelo consequente total alheamento da aula em si. Dir-me-ão que podia ter combatido isto, mas não era fácil. Porque a integração no grupo acarretava tudo: o bom e o mau. Não eram meus inimigos. Eram os meus colegas. Seria bom que este agora chamado bullying fosse feito por inimigos. Mas não. Era levado a cabo pelos mesmos que me quiseram para jogar na final do torneio de futebol, que passavam grande parte do tempo comigo, e com os quais passei bons tempos, apesar de tudo.

É escusado dizer que com todas estas intempéries que se passaram, que se passam (cada vez mais?) na Escola de hoje, e que são incontroláveis (até ver…), o meu rendimento escolar foi decrescendo, e estabilizou no limite aceitável do “passar de ano”. A Escola ofereceu sempre muito mais do que “matéria” e “notas”, e é suposto que assim seja, só que ela não se pode deixar engolir por estas dinâmicas. Não pode deixar que a sua função principal de educação e transmissão de conhecimentos seja abafada desta maneira.

Julgo que com estas reflexões, longas para post, mas curtas em relação ao que eu poderia continuar a escrever, se denotam dois aspectos. O primeiro é o da inscrição da Sociedade na Escola, e a reprodução social que ainda subsiste. O segundo é a mistura que se faz entre este social anterior e paralelo à escola (mas que se inscreve nela), e as dinâmicas que nascem dentro dela, e que muitas vezes criam lógicas contrárias aos seus objectivos institucionais. Julgo que para qualquer debate sobre a Escola é preciso este tipo de reflexão.

O texto vai longo. Demasiado longo. Se fizer sentido para vocês, digam qualquer coisinha, sim?

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Sobre a Sociologia

interrogacao_mat.jpgPensar num post que apresente a Sociologia, para um blogue em que se quer falar dela e com ela não é tarefa fácil. Pensei em socorrer-me dos livros introdutórios, que lidos depois de uns anos de curso ganham uma nova dimensão e são apreendidos com outra clareza, mas considero mais desafiante o exercício de explanar as minhas próprias noções e concepções sobre esta ciência, solto dos livros e dos manuais que nos dão definições redondas e desenxabidas.

A Sociologia é uma ciência. Porquê? Tem um objecto de estudo, e estuda-o socorrendo-se de métodos, técnicas e teorias, como qualquer outra ciência. Tem um carácter científico que se pauta pelo uso de dados empíricos, e pela objectividade requerida na feitura do conhecimento.

O objecto é a essência da própria Sociologia, e é o que a torna tão particular. O comportamento humano enquanto comportamento social, e o social consubstanciado na figura máxima da “sociedade” constitui-se como o foco de interesse. Mas o que é o social? Para mim, é tudo. O ser humano só adquire as características de humano através da interacção com o outro. É o viver em sociedade que nos cria enquanto pessoas dotadas de determinadas características. Dito isto, a Sociologia preocupa-se em compreender os resultados de todas as dinâmicas sociais, desde as estruturas e a cultura, passando pelos valores e representações sociais, até à acção dos sujeitos e suas interacções mais imediatas.

Os métodos e técnicas ligam-se ao modo de fazer, ou modus operandi da Sociologia. Ao escolhermos um caminho metodológico para uma investigação estamos a fazê-lo em função do nosso objecto e das interrogações que temos sobre ele. O método experimental, vulgar nas ciências exactas, é praticamente inutilizado pela Sociologia. Restam os métodos quantitativo e qualitativo, sendo o primeiro utilizado em estudos sobre grandes populações (com predomínio da análise estatística), e o segundo utilizado em pequenos grupos. Hoje em dia é claro para os sociólogos que não existem fronteiras rígidas entre os dois métodos. Eles complementam-se de forma bastante nítida. As técnicas são os instrumentos de recolha de informação, per se. Elas são escolhidas em função do método, e das necessidades da investigação. Temos os inquéritos por questionário, as entrevistas, a análise documental, e a observação participante, por exemplo. Todas elas servem o propósito de recolher informação passível de análise sociológica, e todas elas têm utilidades diferentes e complementares, assim como um poder de generalização diferenciado.

Por fim, as teorias. Elas são a base de uma investigação, e ao mesmo tempo são o seu resultado. Qualquer autor se baseia no que os outros teóricos fazem, e parte daí para a sua própria investigação. As teorias são a explicitação conceptual da realidade social, são a visão das suas regras, leis, tendências, e dinâmicas. São, no fundo, o que torna inteligível o social, o que o tenta explicar e compreender.

Assim, vemos que a razão de fundo desta ciência é a criação de conhecimento. Nada mais. Por isso, e para já, a minha resposta sobre «o que é a Sociologia?» passará por isto: Conhecimento. Sempre inacabado, sempre mudando e mutando, sempre insuficiente, mas sempre importante.

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Rapariguinha do Shopping

Há músicas que são pequenos tratados sociológicos. Esta é uma delas. Anos e anos depois do seu nascimento mantém-se fresca, e só precisava de sofrer algumas “afinações teóricas” para se poder dizer que foi escrita hoje.

Esta música é um retrato delas, das rapariguinhas do shopping. Rui Veloso, o sociólogo:

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Roubei ao Kontratempos um artigo da socióloga Helena Vilaça, em que ela reflecte sobre a religião e a política nos EUA. Um artigo esclarecedor. Sem dúvida.

Da religião na América

O modo como a política e a religião se interligam na sociedade americana continua a provocar, na grande maioria dos europeus, um olhar de espanto e crítica. Num momento em que decorrem as primárias que decidirão os candidatos à Casa Branca, temos mais um exemplo da importância da religião no cenário político – a fé dos candidatos, os conteúdos religiosos dos discursos, as igrejas visitadas em campanha, a identidade confessional das bases de apoio.

Ao contrário da Europa, onde cada Estado evoluiu em parceria com as respectivas Igrejas dominantes, os EUA, tendo sido povoados por imigrantes com diferentes culturas e religiões, muitos dos quais vítimas de perseguição religiosa na Europa, nunca poderiam eleger a homogeneidade religiosa como sustentáculo da coesão nacional.

Como bem observou Tocqueville em Da democracia na América, a religiosidade inaugurada nos EUA está ancorada na diversidade religiosa e na autonomia desta relativamente à política. Esta autonomia terá desempenhando um papel determinante na formação da democracia norte-americana. Em oposição às teses que sustentavam uma retracção da religião à medida que proliferavam os ideais de liberdade e de humanismo, na América, a vitalidade religiosa conduziu ao ideal de liberdade e à própria modernidade.

O sociólogo Robert Bellah retoma o tema, em meados do século XX, através da tese da religião civil. Segundo Bellah, a dimensão religiosa está presente na vivência da generalidade dos indivíduos que interpretam a experiência histórica à luz duma realidade transcendente, na qual Deus não surge como monopólio de uma denominação ou mesmo do cristianismo. As grandes famílias religiosas americanas partilham símbolos que funcionam como elementos fundamentais para a unidade e a universalidade da nação, constituindo a religião uma referência norteadora da comunidade política, legitimada pela opinião pública.

Uma pesquisa recente do Pew Research Center for the People & the Press sustenta a actualidade daquela tese: 61 por cento dos americanos não gostaria de ter de apoiar um candidato ateu e quase 70 por cento quer um presidente que tenha fortes convicções religiosas, o que é tanto mais curioso se considerarmos que mais de metade dos que não têm filiação religiosa também pensa assim. Estas atitudes são transversais a Republicanos, Democratas e independentes e o perfil dos principais candidatos enquadra-se dentro dos requisitos.

No campo republicano, à excepção de Giuliani, um católico pouco ortodoxo (não praticante e divorciado) e Thompson, educado na protestante Igreja de Cristo e objecto de notícia por não gostar de falar de religião (curiosamente dois candidatos que já desistiram) todos os outros têm convicções religiosas fortes. McCain nasceu na Igreja Episcopal mas frequenta a Igreja Baptista, Paul originariamente luterano, tornou-se episcopal e hoje é baptista, Huckabee é pastor baptista do sul, um evangélico born-again (renascido) e Romney, apesar de mórmon – 25 por cento dos republicanos preferia que não o fosse –, é apreciado pelo facto de ser muito religioso.

O mesmo se passa na área democrata. Clinton projectou na vida política a sua fé metodista, por exemplo, como membro do grupo de oração do Senado. Edwards, que de baptista passou a metodista, co-presidiu, também no Senado, à National Prayer Breakfast. Obama tornou-se membro activo de uma Igreja que combina a teologia luterana com a experiência religiosa negra, a Trinity United Church of Christ.
Quer a diversidade quer o percurso religioso dos candidatos reflectem bem a vitalidade religiosa da sociedade americana. Mais do que pertencer a esta ou aquela confissão o importante é ser crente. A eleição de Kennedy em 1960 é ilustrativa disso. Por outro lado, a política norte-americana está para lá das dicotomias entre direita e esquerda religiosas ou dos grandes grupos: evangélicos, protestantes históricos, católicos, protestantes negros.

Esta complexidade religiosa e política é analisada por Green e Waldman em The Twelve Tribes of American Politics. Dos grupos identificados, destacaremos aqueles cuja representatividade poderá contar eleitoralmente: Direita religiosa, Guerreiros da cultura patriótica, Evangélicos moderados, Protestantes brancos, Católicos convertíveis (brancos), Esquerda religiosa, Latinos, Protestantes negros, Seculares.

Apesar das fidelidades partidárias supostamente rígidas da maioria dos grupos, há um grau de permeabilidade, por vezes, surpreendente. Basta um exemplo. Os Evangélicos moderados, tal como a Direita Cristã, são born-again Christians e defendem, contrariamente à maioria dos americanos, a intervenção das organizações religiosas na política. Jimmy Carter pertence a este grupo, Bill Clinton conquistou-os, façanha que Obama procura reeditar. Se a religião na América pode ser considerada um dos factores explicativos das escolhas eleitorais, em última análise, o que determina o voto político é o modo como os candidatos demonstram a força das suas convicções e a capacidade de as traduzir em metáforas e símbolos religiosos.

Helena Vilaça

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283168.jpgEm Portugal, como no mundo, a pobreza não é um fenómeno aleatório. Ela não atinge “qualquer um” de forma indistinta. Existem sempre categorias sociais mais vulneráveis à pobreza, pelo que é em pessoas que partilham as condições para pertencerem a uma determinada categoria que se regista a ocorrência de pobreza em maior número.

Essas categorias constroem-se através de factores tais como o género, a idade, a escolaridade, a situação perante o mercado de trabalho, e até a estrutura familiar a que uma pessoa pertence.

No factor «situação perante o mercado de trabalho» salientam-se imediatamente os reformados e “outros economicamente inactivos” como categorias particularmente vulneráveis. Uma das principais razões para a pobreza nestas categorias sociais é o baixo nível das prestações sociais que as pessoas auferem. É certo que nem todos os beneficiários das prestações sociais são necessariamente pobres, já que podem estar inseridos em agregados familiares com rendimentos acima do limiar da pobreza, mas o risco de pobreza intensa não deixa de ser elevado. As prestações sociais não cobrem a totalidade do valor do limiar da pobreza. Em 2001, o valor do limiar da pobreza era de 3590 euros por ano [1], enquanto que a «pensão social» e a «pensão mínima do regime geral» atingiam valores de 1933 e 2514 euros por ano, respectivamente. Face a estes números, não surpreende que 25% dos reformados, e 28% dos “outros economicamente inactivos”, estejam em risco de pobreza.

Também não nos surpreendemos com o facto de que nesse mesmo ano de 2001, cerca de 38% dos desempregados estavam em risco de pobreza.

Estas são as categorias mais vulneráveis. São os que não têm qualquer papel no mercado de trabalho, e que por isso não obtêm rendimentos.

Todavia, em Portugal, e ao contrário dos países mais desenvolvidos da Europa, ocorre algo surpreendente: trabalhar não assegura a cobertura do risco de pobreza. Cerca de 10% dos trabalhadores por conta de outrem correm risco de pobreza, e cerca de 30% dos trabalhadores por conta própria correm o mesmo risco, embora seja necessário salvaguardar que é nesta categoria ocorre a ocultação de rendimentos com mais frequência. Contudo, é também certo que nela se inserem sectores precários e desfavorecidos da actividade económica, tais como alguns sectores da construção civil, comércio e outros serviços (pessoais, domésticos, etc). Isto leva-nos a pensar nos «novos pobres», nos pobres que trabalham mas que mesmo assim não deixam de ser pobres. Este é um fenómeno novo que atinge cada vez mais famílias.

Quando olhamos para o factor «escolaridade» podemos notar que ele é um elemento de influência considerável no risco de pobreza. A incidência situa-se nos 22% entre as pessoas com escolaridade inferior ao 9º ano, sendo de 8% naqueles que possuem o 12º ano e apenas de 2% nos que alcançaram um nível de qualificação superior ao 12º ano de escolaridade.

Também os factores «idade» e «género» interferem na exposição ao risco de pobreza. As mulheres são tendencialmente mais pobres que os homens, e foi apenas em 2001 que os valores da respectiva taxa entre homens e mulheres se aproximaram. Por seu turno, os idosos representam o grupo etário de maior vulnerabilidade, embora o risco de pobreza tenha conhecido um decréscimo nos últimos anos, passando de 38% em 1995 para 30% em 2001. Contudo, na UE15 os valores médios não vão além dos 19%. No sentido inverso tem evoluído a situação das crianças com um aumento ligeiro de risco de pobreza entre 1995 e 2001, mantendo-se neste ano em 27%.

Na análise das «estruturas familiares» sobressaem as famílias monoparentais como o tipo de agregado mais vulnerável à pobreza. Em 2001, o risco de pobreza para esta categoria era de 39%. Igualmente vulneráveis à pobreza estão os isolados, principalmente os idosos e mulheres.

Quem são os pobres em Portugal? Não é fácil traçar perfis da pobreza. Mas podemos compreendê-la melhor se olharmos para os factores que a ela se ligam. Estar fora do mercado de trabalho, ter poucos recursos escolares, viver em famílias desestruturadas, ser velho e não ter apoios, são algumas das situações sociais que levam mais frequentemente à pobreza. É também com estas descrições que podemos conectar facilmente a pobreza à exclusão: estar out em vários domínios do social é condição sine qua non para se ser pobre.

[1] O valor do limiar da pobreza é diferente do referido num outro texto devido à sua diferente ponderação.

Referência bibliográfica

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