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Archive for the ‘Sociedade’ Category

Assunção Esteves e Simone de Beauvoir, um paralelismo cuja lógica nos é desconhecida, mas a verdade é que a primeira a citar a segunda me leva à escrita. Melhor, leva-me a questionar se a primeira sabe que se deve ponderar se metáforas são apropriadas ou não em situações de tensão e sobretudo, se a metáfora em si não é ofensiva e despropositada pelos termos utilizados. As mesmas palavras não servem para todos as ocasiões nem se aplicam os mesmos sentidos.

Carrasco é um exemplo disso. Preocupa-me também a interpretação da primeira à citação utilizada “Não podemos deixar que os nossos carrascos nos dêem maus costumes” (que Simone de Beauvoir utilizou para se referir à opressão nazi sobre a população francesa), pois afirma “Significa que quando as pessoas nos perturbam não devemos dar atenção”.

As pessoas que se queixam do penoso trabalho levado a cabo por este governo que apenas sufoca mais a população sem fazer cortes relevantes nas suas próprias mordomias são os incómodos e os chatos… Sim, liberdade de expressão e espírito crítico, que maçada… Vamos todos comer e calar, pois coitados, os deputados e o governo estão lá de tão boa vontade a ajudar todos nós… Acho que devíamos pedir desculpa por achar que o comboio está desgovernado e temermos pelo nosso próprio futuro… Acho que devíamos pedir desculpa e ser democráticos ao protestar e mostrar a nossa indignação de uma forma minimamente civilizada, já que tão bons exemplos há neste mundo de outras formas de protesto… Preocupa-me também esta atitude de ignorar que nos perturba… Vamos apenas andar em frente e ignorar tudo o que nos rodeia, ignorar a realidade e continuar.

Parece-me insensibilidade, na melhor das hipóteses.  A interpretação da citação também me suscita algumas dúvidas, já que me parece algo mais na linha de não agir de determinada forma por influência de austeras terceiras pessoas. Sendo assim, acho que se aplicaria mais ao contrário, já que o governo ficaria melhor nessa posição, pois maus costumes têm sido aquilo com que mais nos presenteiam, e não só nos perturbam como têm sido quase carrascos para todo este país.

Irónico, no mínimo.

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Fumarada

Os buracos na lei do tabaco permitiram que a displicência do costume  triunfasse. Temos lugares livres de fumo, com metade do fumo,  ou com fumo total, à escolha do freguês, ou melhor, do dono do lugar. Há de tudo, mas realço os sítios em que o fumo se concentra mais do que nunca.

fumadores

É de conclusão elementar perceber que com a menor oferta de Cafés onde é permitido fumar, se dá o incremento da procura pelos mesmos, com o consequente aumento de fumadores por metro quadrado.

Ah, que bem que sabe um café e um cigarrinho numa tarde solarenga, ou cigarro e um fininho numa noite quente de Verão!

E lá está sempre algum desprevenido não-fumador, uma figura tipo D. Sebastião num nevoeiro tóxico, um desgraçado a respirar fumo pela boca, pelo nariz, pelos olhos; até a roupa respira o fumo, o consome sofregamente até ao seu cheiro ficar tão entranhado que nem uma dose cavalar de um bom Skip ou Ariel o consegue retirar.

E é isto, mais uma lei que fica a meio do caminho.

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Um dos temas que tenho vindo a abordar no decorrer da feitura da minha pequena tese de licenciatura é o do surgimento de valores pós-materialistas nas sociedades ocidentais, após a 2ª Grande Guerra. A minha análise prende-se com os valores sobre o trabalho, mas o pós-materialismo inscreve-se, obviamente, nos vários domínios da vida.

Os valores pós-materialistas são típicos das sociedades mais desenvolvidas, em que o bem-estar físico é um dado adquirido para a generalidade dos indivíduos. Com a sobrevivência assegurada, as pessoas passam a almejar algo mais do que a luta pela manutenção das suas vidas. De igual modo, quando algum bem-estar físico é a regra numa sociedade, os indivíduos que nascem no seu seio tendem a desenvolver perspectivas de vida que ultrapassam a valorização do seu próprio bem-estar. Parece contraditório, mas o aparente desdém para com as atitudes materialistas só é possível porque se vive numa sociedade materialmente forte.

Sucintamente, ser materialista é valorizar a segurança, um emprego com um bom salário, e, grosso modo, o acesso aos bens materiais. Ser pós-materialista é ir além disto, e valorizar coisas como um emprego em que “faço o que gosto”, a expressividade pessoal, e querer atingir a auto-realização.

Uma pergunta que faço é «que pós-materialismo é possível num contexto de crise (objectiva e subjectiva)?» Será que o pós-materialismo dos portugueses se está a retrair? Pessoalmente, julgo que o retraimento das atitudes pós-materialistas será apenas adaptativo, na medida em que o núcleo de valores criado nas últimas décadas não pode ser desmontado assim tão facilmente. O horizonte de valores dos indivíduos só será verdadeiramente afectado com uma crise muito mais forte e duradoura, que todos esperamos que nunca venha a acontecer.

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Como houve quem gostasse deste post, principalmente pelo vídeo do programa Crossfire, coloco aqui um outro, de 1987, em que Frank Zappa enfrenta de novo alguns homens cinzentos. Desta vez estão todos em cinzento devido à qualidade do vídeo, mas que não existam dúvidas sobre quem é quem, e, acima de tudo, não nos enganemos sobre quem foi verdadeiramente derrotado pelos ventos da mudança.

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Já demonstrei aqui a minha perspectiva em relação a esta discussão. O governo também quer criminalizar os donos de cães perigosos quando os seus animais cometem um “ilícito”. Não estou de acordo. Não devem ser só os donos de animais «catalogados» como perigosos a serem responsabilizados por eles. Se um caniche me morder o tornozelo eu também vou pedir contas à sua dona, e quero que ela pague criminalmente por isso. (Quem encontra um estereótipo na última frase?) Haja o mínimo de igualdade perante a lei! Mas… não é essa a questão.

(Imagem via Denúncia Animal.)

A questão central é o medo. O medo e a ignorância que criam esta diabolização de simples animais. São tão só animais que não têm nenhum gene malévolo que os leve institivamente a morder criancinhas.

O medo, e o que ele provoca, em alguns comentários à notícia do Público:

(i) “Acho bem que sejam completamente proibidas as raças perigosas. Quantas crianças mais, precisam de morrer ou ficar desfiguradas para o resto das suas vidas???”

(ii) “E ser bem aplicada, estamos fartos de ter leis giras para não cumprir. Ainda este fim de Semana apanhei um susto junto à Bomba da Repsol Entrada de Olhão (Sentido Faro-Olhão), estacionei junto à bomba e antes de sair do carro avançou uma PitBull preta sem acaimo e sem trela com o dono a assistir reside nas casas próximo e não chamou a cadela. Tem sinais de estar a amamentar…criar mais uns meninos iguais à mãe. Esta lei há muito deveria estar ai!!! E ser aplicada com dureza! Mais uma vez deixo o alerta à PSP de Olhão, para agir quanto antes.”

(iii) “As vezes os “amigos dos animais” deviam ser mordidos por rotwaillers, ou pitbull´s, para saberem o que doi. Como se julga um ataque a uma criança por um animal desses?!por mim era extingui-los, mas como este país está meio “efeminado” fiquemos pela segunda melhor solução culpar os donos…Que metam açaimes, que nao os deixem à solta. Os amiguinhos dos animais preferem um cao a um humano….Arranjem amigos, e familia…. Nem deviam ser ouvidos nestas questões.”

É somente com base no medo cego que se dá este salto gigante para a frente, e se ultrapassa tudo o que se deve fazer, e devia ter feito antes, no que concerne à legislação sobre animais domésticos. Disse.

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A recorrência da pobreza na actualidade nacional é louvável, mas não se deve levar a sério. Mais dia, menos dia, fica tudo na mesma.

Um Relatório Sobre a Situação Social na União Europeia (UE) refere que Portugal é o país mais desigual da UE. Bruto da Costa, que divulga o seu estudo “Um Olhar sobre a Pobreza” no Público, alerta-nos para o problema da persistência da pobreza em Portugal, e para a multidimensionalidade do fenómeno. Louvável.

No campo político, Manuela Ferreira Leite (MFL) disse há uns dias que estava preocupada com os “novos pobres”. Só que os “novos pobres” já estão a ficar velhos. Num estudo encomendado pela Comissão das Comunidades Europeias, publicado num relatório em finais de 1989, já se faziam referências aos “novos pobres”, e explanava-se o complexo fenómeno da exclusão social e da pobreza pelas suas várias dimensões. MFL vem um pouco tarde, mas o que é realmente importante é que os conceitos soem a algo fresco.

O problema é sempre o mesmo. O diagnóstico é profundo, e vai bem além dos soundbytes dos políticos. Já a acção fica sempre na linha de partida. Há olhares preocupados e «humanos», e há até um consenso moral, mas não há um consenso prático para levar a Pobreza por um caminho sem retorno em direcção à extinção.

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Burocracia

Com a modernidade veio a burocracia. E com a burocracia veio o desespero e impotência face a algumas máquinas administrativas.

Hoje fui (tentar) buscar um certificado do ensino secundário de um ex-aluno à respectiva escola secundária. Fui fazer um pequeno favor a uma pessoa que trabalha durante todo o dia, e que por isso não tinha qualquer possibilidade de ir levantar o certificado. O documento tinha sido requerido uma semana antes. Foram pagos dois euros no momento em que se fez o requerimento. Estava tudo certo. Era só chegar lá com o recibo e levantar um simples documento.

Ora bem, quando cheguei à secretaria e apresentei o recibo disseram-me que tinha de requerer o diploma dessa pessoa, que nunca tinha sido requerido antes, para que o chefe da secretaria pudesse assinar o certificado. Era simples, no fundo. Estúpido e ilógico, mas burocraticamente simples. Tinha de ir buscar outra folha de requerimento (igual à usada para requerer o certificado que foi pedido uma semana antes), preencher, pagar seis euros, e obter outro recibo para depois ir levantar o diploma mais tarde. Feito este procedimento o chefe da secretaria já poderia assinar o tal certificado. O certificado estava ali, à minha frente. Eu vi-o. Era azul. Tinha os nomes das disciplinas, as classificações, e a média final. Até já estava pago. Faltava a malfadada assinatura. E eu só podia ter o rabisco do senhor chefe dos serviços se pedisse um documento que não queria, e pagasse por ele.

Neste enredo kafkiano, a ironia está no facto de eu poder requerer o diploma de outra pessoa, mas não poder receber um documento que foi devidamente requerido e pago, seguindo assim todos os trâmites.

Não requeri o diploma e vim embora. A pessoa que precisava do certificado (para se candidatar a um emprego fora do país) vai enviar toda a documentação sem o tal certificado. Vamos lá ver o que dá.

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