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Archive for Setembro, 2015

Perdi um amigo. Perdi-o para uma doença, silenciosa e matreira, que o levou demasiado cedo. Também o perdi para a ignorância e a inoperância. O Carlos tinha Asperger. Depois veio a depressão, profunda, de certeza que era profunda. Afogou os seus fantasmas em uísque, apaziguou-os com comprimidos, e perdeu.

O síndrome de Asperger é uma forma de autismo que se caracteriza por dificuldades na interação social e comunicação não verbal. O Carlos era assim, não percebia sinais que todos percebemos, não sabia muito bem como se comportar numa normal situação social. Por isso era assim, calado, sossegado, introvertido, reservado. Às vezes inconveniente ou simplesmente estranho. Também tinha problemas dos quais talvez eu não saiba nem metade.

O Asperger era auto-diagnosticado. Ele não tinha ido ao médico nem procurado ajuda profissional. Ele era inteligente e tentava resolver os seus próprios problemas. Mas não era assim tão inteligente e encontra soluções estranhas para problemas simples do dia-a-dia. Descobrir ele próprio que era “aspie” foi fácil. Resolver a sua vida como “aspie” não.

Eu gostava do Carlos. Comunicávamos muito online, nos chats do facebook ou do gmail. Éramos diretos um com o outro. Dizíamos a verdade um ao outro de forma assertiva. Ao vivo era diferente, mas lá íamos beber um copo de vez em quando e falar de tudo e de nada.

O Carlos entrou num ciclo de auto-destruição que ninguém parou. Fumava muito. Bebia de forma anormal, chegando a beber uma garrafa de uísque numa noite. Auto-medicava-se com serotonina e sei lá mais o quê. Experimentou cocaína.

Nada resultou, claro. Um dia o Carlos despediu-se do seu emprego. Amigos e colegas de trabalho telefonaram-lhe a perguntar o que tinha acontecido. Foram a casa dele onde ouviram um simples “não me procurem mais”.  Voou para Portugal e foi encontrado morto na sua casa.

O Carlos lutou contra os seus fantasmas e era ele próprio um fantasma a maior parte do tempo. Tentou ser invisível para os outros porque não sabia como lidar com eles. Acabou, talvez, por decidir que o melhor era apagar a sua vida.

O Carlos era uma pessoa brilhante, com um futuro que poderia e deveria ter sido diferente se tivesse tido a ajuda certa ao longo da sua vida. Era bondoso e honesto. Foi campeão nacional sub-20 de xadrez em 2006/07. Nunca ninguém o percebeu ou ajudou verdadeiramente. E ninguém conseguiu parar a espiral negativa e vertiginosa em que um “aspie” com depressão e dependências acaba por entrar.

Escrevo este memorial para o relembrar e para aumentar a consciencialização que precisamos de ter sobre o síndrome de Asperger e a sua relação com a depressão e o suicídio.

Talvez o Carlos não quisesse ser lembrado mas não poderá ser esquecido. Como escreveu um seu amigo, “os momentos e memórias são imortais, como a mais bela partida de xadrez”.

Até sempre, Carlos.

Carlos André Ramalho Oliveira / 1987-2015

Carlos André Ramalho Oliveira / 1987-2015

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