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Posts Tagged ‘Pierre Bourdieu’

Em Bourdieu, o espaço social é um espaço virtual teórico onde se organizam as diferenças sociais. É nele que se articulam as posições sociais dos agentes (indivíduos) com as disposições (habitus) e as tomadas de posição (práticas). As diferenças e distâncias no espaço social são relacionais. Quer isto dizer que elas só existem umas em relação às outras, e não de forma absoluta.

A posição no espaço define-se pela incorporação de dois capitais fundamentais, embora existam outros na teoria bourdiana. São eles o capital económico e o capital cultural. Assim, conseguimos encontrar correspondências entre a “posse” destes capitais e as práticas efectivas: gostos, consumos, “decisões” dos indivíduos. São os habitus que intermedeiam a relação entre uma posição e uma acção social. Isto porque face às mesmas condicionantes sociais, pela posição, se produzem habitus idênticos, predispostos a tomar o mesmo tipo decisões.

O espaço social define-se em três dimensões: capital global (capital económico + capital cultural) no eixo vertical; peso relativo dos dois capitais (+/-) no eixo horizontal; e por fim, o eixo temporal, que prevê a trajectória dos sujeitos no espaço social.

Podemos perceber isto de forma menos teórica (e anafada) no esquema que se segue. (clicar para ver maior)

É deste modo que Bourdieu concebe as classes sociais. Não enquanto classes reais, no sentido marxista, com objectivos comuns e com indivíduos mobilizados para os atingir, mas como classes teóricas que têm a potencialidade de se tornaram reais em certos momentos. Negar a existência de classes sociais é, em última análise, “negar a existência de diferenças e de princípios de diferenciação”. Espaço social é sinónimo de espaço simbólico, espaço de lutas, um local teórico de diferenças objectivas e subjectivas.

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Habitus

A dualidade ou antagonismo entre agente e estrutura constitui um dos debates primeiros da teoria social contemporânea. O agente é um corpo socializado em acção, sendo a estrutura tudo o que é exterior e anterior a esse corpo. Deste modo, arquitectamos uma oposição extrema entre indivíduo e sociedade. Terá o indivíduo margens de liberdade absolutas na sua acção? Ou será a sociedade, e mais especificamente, a estrutura social, capaz de determinar as acções individuais de todos nós? Estas perguntas, antípodas e simplificadoras do debate, são um dos alvos da teoria da prática, ou teoria da acção, bourdiana.

O habitus é um dos conceitos da teoria de Bourdieu que pretende desfazer os antagonismos primários presentes no conhecimento científico e no senso comum, e que nos levam a pensar na acção humana de forma dual. O conceito de habitus define-se como um “sistema de disposições para a acção”. É uma noção mediadora entre a estrutura e o agente em que se procura incorporar todos os graus de liberdade e determinismo presentes na acção dos agentes sociais. Assim, o habitus é a “interiorização da exterioridade e a exteriorização da interioridade”, ou seja, ele capta o modo como a sociedade se deposita nas pessoas sob a forma de disposições duráveis, capacidades treinadas, e modos de pensar, agir e sentir, e capta também as respostas criativas dos agentes às solicitações do meio social envolvente, respostas essas que são guiadas pelas disposições apreendidas no passado.

O nosso habitus constrói-se no processo de socialização: um processo inacabado porque nunca se extingue no decorrer da vida, mas não uniforme porque a socialização tem múltiplos graus e matizes. É no nosso encontro com a sociedade que se cria o habitus, e é ele que nos permite avançar em cada situação, já que é na sua constituição que adquirimos todas as matrizes ou estruturas mentais para agir. No fundo, o habitus é uma espécie de bússola social que nos foi oferecida pela própria sociedade; é uma “competência prática adquirida na e para a acção”; é uma aptidão social incorporada, durável no tempo mas não eterna.

O habitus fornece dois princípios, o de “sociação” e o de “individuação”, que demonstram a razão pela qual este conceito é um mediador entre o social e o individual. A “sociação” prende-se com o facto de que as nossas categorias de juízo e de acção provêem da sociedade e são partilhadas por todos aqueles que foram submetidos a condições semelhantes. A “individuação” transporta-nos à ideia de que cada pessoa tem uma trajectória e localização únicas no mundo, e por isso cada um de nós interioriza uma composição de esquemas singular.

O habitus é estruturado nos meios sociais, e estruturante de acções e representações. Ele é o “princípio não escolhido de todas as escolhas.”

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“Objectively classifiable conditions of existence (class of conditioning) and position in structure of conditions of existence (a structuring structure)” develops into “Habitus, a structuring structure and a structured structure.”

Indeed.

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Pierre Bourdieu

bourdieu.jpgPierre Bourdieu foi um eminente sociólogo francês contemporâneo. Escreveu obras sobre vários temas, e em todos eles conseguiu apurar conhecimentos importantíssimos. A sua teoria, desenvolvida ao longo de décadas de pesquisa, e com elevado grau de complexidade, deu-nos instrumentos teóricos preciosos que nos permitem analisar e compreender a realidade social de uma forma anteriormente impossível. Conceitos como habitus, campo, capital, dominação, distinção, violência simbólica, entre outros, constituem o corpo da sua teoria. Seria impossível discorrer sobre toda a teoria bourdiana neste espaço, pelo que lhe dedicarei alguns posts minúsculos nos próximos tempos, e com certeza durante toda a vida deste blogue.

O primeiro apontamento sobre Bourdieu será algo de bastante provocatório para aqueles que acreditam na essência do indivíduo, e no seu valor intrínseco determinado pela natureza ou pela biologia. O desvendamento dos mecanismos sociais ocultos, a desconstrução das condições que permitem a reprodução (e a mudança) de situações e capacidades socialmente construídas e adquiridas através do “conhecido” processo de socialização, enfim, o rompimento com o individualismo metodológico e com o funcionalismo americano, permitem descortinar que existe, de facto, uma estrutura social que determina, em parte, os indivíduos. No fundo, a sociedade está nos indivíduos e estilhaça-se neles. A figura de uma sociedade estilhaçada não quer dizer que ela esteja em ebulição, ruptura ou desagregação. Significa antes que ela chega às pessoas de forma diferente porque cada uma delas vive em condições sociais (económicas, culturais, etc) diferentes. É esta a génese das classes sociais, dos grupos ou categorias, da dominação e da violência simbólica. Pelo menos, é esta a minha concepção. Do mesmo modo, os indivíduos não são autómatos determinados por uma estrutura social rígida. Não existem fronteiras firmes entre as diferentes condições de vida nas sociedades ocidentais modernas, e é por isso que não existe qualquer sujeição total do sujeito à sociedade.

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