“Love will tear us apart” – Joy Division
“Love will tear us apart” – Joy Division
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Café do PS, em Valadares
Há uns tempos atrás, Pacheco Pereira publicou esta foto no seu blogue. Enviei-lhe a foto porque era uma curiosidade, mas também porque era uma forma de criar uma pequena interacção com um intelectual conhecido da nossa praça.
Recupero-a agora, e edito-a no meu blogue.
É um café/tasca que supostamente está afecto ao Partido Socialista, mas não é propriamente frequentado pelos seus militantes. São homens, para cima da meia-idade, com rendimentos baixos, e capital cultural fraco, os frequentadores habituais do café. Lá dentro, uma fotografia do Jorge Sampaio na parede, algumas mesas, e uma sala de jogo improvisada nos anexos.
Nunca encontrei mais nada deste género em Portugal, e por isso a curiosidade da coisa. Aqui fica a foto.
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Aplicar inquéritos é uma tarefa comuníssima nas ciências sociais. Em circunstâncias bastante diversas, os investigadores inquirem o seu objecto de estudo através de perguntas (semi) rígidas e pré-estabelecidas. Conceber um inquérito não é tão fácil como parece, mas aplicá-lo também não.
Estou neste momento a aplicar inquéritos aos trabalhadores do comércio tradicional do Porto. Entrar na loja, apresentar o nosso propósito, começar o inquérito (ou ir embora, agradecendo na mesma), explicar as perguntas e as possibilidades de resposta, e tentar obter a “melhor” resposta possível do indivíduo. Pelo meio disto, as interrupções e interjeições, os comentários e opiniões, as graçolas de quem chega, o possível desinteresse do respondente, que só nos quer despachar, ou a pressão de ter o patrão à beira enquanto se responde a questões sobre a satisfação no trabalho.
Enfim, um mar de bactérias que infecta a interacção hermética que o inquérito, em teoria, exige. Mas é tudo matéria para análise, para tirar notas, para aprofundar em futuras entrevistas. Aos 5 minutos de inquéritos acrescentam-se mais 20 minutos de conversa: sobre a situação do comércio tradicional, sobre a crise, sobre os filhos que estão na universidade como nós, sobre tudo.
O inquérito nunca, mas nunca, é feito de forma pura, mas as impurezas também são importantes para a investigação, seja ela de que tipo for.
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“Over the hills and far away” – Gary Moore
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Os buracos na lei do tabaco permitiram que a displicência do costume triunfasse. Temos lugares livres de fumo, com metade do fumo, ou com fumo total, à escolha do freguês, ou melhor, do dono do lugar. Há de tudo, mas realço os sítios em que o fumo se concentra mais do que nunca.

É de conclusão elementar perceber que com a menor oferta de Cafés onde é permitido fumar, se dá o incremento da procura pelos mesmos, com o consequente aumento de fumadores por metro quadrado.
Ah, que bem que sabe um café e um cigarrinho numa tarde solarenga, ou cigarro e um fininho numa noite quente de Verão!
E lá está sempre algum desprevenido não-fumador, uma figura tipo D. Sebastião num nevoeiro tóxico, um desgraçado a respirar fumo pela boca, pelo nariz, pelos olhos; até a roupa respira o fumo, o consome sofregamente até ao seu cheiro ficar tão entranhado que nem uma dose cavalar de um bom Skip ou Ariel o consegue retirar.
E é isto, mais uma lei que fica a meio do caminho.
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Um dos temas que tenho vindo a abordar no decorrer da feitura da minha pequena tese de licenciatura é o do surgimento de valores pós-materialistas nas sociedades ocidentais, após a 2ª Grande Guerra. A minha análise prende-se com os valores sobre o trabalho, mas o pós-materialismo inscreve-se, obviamente, nos vários domínios da vida.
Os valores pós-materialistas são típicos das sociedades mais desenvolvidas, em que o bem-estar físico é um dado adquirido para a generalidade dos indivíduos. Com a sobrevivência assegurada, as pessoas passam a almejar algo mais do que a luta pela manutenção das suas vidas. De igual modo, quando algum bem-estar físico é a regra numa sociedade, os indivíduos que nascem no seu seio tendem a desenvolver perspectivas de vida que ultrapassam a valorização do seu próprio bem-estar. Parece contraditório, mas o aparente desdém para com as atitudes materialistas só é possível porque se vive numa sociedade materialmente forte.
Sucintamente, ser materialista é valorizar a segurança, um emprego com um bom salário, e, grosso modo, o acesso aos bens materiais. Ser pós-materialista é ir além disto, e valorizar coisas como um emprego em que “faço o que gosto”, a expressividade pessoal, e querer atingir a auto-realização.
Uma pergunta que faço é «que pós-materialismo é possível num contexto de crise (objectiva e subjectiva)?» Será que o pós-materialismo dos portugueses se está a retrair? Pessoalmente, julgo que o retraimento das atitudes pós-materialistas será apenas adaptativo, na medida em que o núcleo de valores criado nas últimas décadas não pode ser desmontado assim tão facilmente. O horizonte de valores dos indivíduos só será verdadeiramente afectado com uma crise muito mais forte e duradoura, que todos esperamos que nunca venha a acontecer.
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Desculpas, desculpas e mais desculpas aos leitores. Parei de escrever no blogue, primeiro por falta de tempo, e depois por falta de vontade e inspiração.
Primeiro, devo falar do estágio que fiz, e que entretanto terminou. Óptima experiência a todos os níveis, que me permitiu conhecer por dentro uma empresa importante no nosso país. O meu trabalho era fundamentalmente administrativo: tratar de papelada, atender telefones, gerir algumas bases de dados, etc. Mas também teve uma forte componente humana, bem mais difícil de gerir: participei em alguns momentos de recrutamento e selecção de pessoas, e tive de apoiar a coordenação de um processo de formação.
Quanto ao Sociologando, devo dizer-vos que tenho procurado novos colaboradores para o blogue, e espero que em breve esteja mais gente a escrever nesta plataforma.
Espero também escrever alguns textos relacionados com a tese que estou a fazer, entre outras coisas.
Voltarei a escrever em breve.
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A partir da próxima sexta-feira, 11 de Julho de 2008, estarei a estagiar numa empresa de seguros. É a minha primeira experiência de trabalho “a sério”, e vai durar cerca de três meses. Ainda não sei descrever ao pormenor o conteúdo do meu trabalho, mas julgo que se inscreverá principalmente na análise interna, com colaborações pontuais no departamento de recursos humanos.
Uma das questões colocadas na entrevista de selecção foi muito simples. “Para que serve a Sociologia?” A resposta não é nada evidente. Ainda menos quando queremos fazer valer a nossa utilidade face a um empregador. Esta dificuldade em responder a uma pergunta tão simples deve-se a uma incapacidade de afirmação da Sociologia na Sociedade em geral e, particularmente, no mainstream do tecido empresarial, que é dominado pelas linguagens e saberes técnicos. O Sociólogo só pode singrar numa empresa se se apropriar dessas linguagens e saberes, tendo como valência extra os seus conhecimentos e capacidades enquanto especialista numa ciência particular, que lhe conferem uma visão/perspectiva da realidade igualmente particular. Mas não é só a Sociedade e as Empresas que falham ao não reconhecerem a Sociologia e os Sociólogos como úteis. Falham também as universidades, que insistem em produzir sociólogos-investigadores, fazedores de projectos, académicos e intelectuais, stricto senso, e se coíbem em criar sociólogos-técnicos capazes de colaborar nas empresas, e de mobilizar análises técnico-instrumentais em prol delas. Em última análise, falham também os próprios licenciados em Sociologia que não podem descurar formações complementares noutros domínios, e lhes poderão abrir portas para outras áreas profissionais.
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Tenho lido o Socio[B]logue 2.0, e encontrado textos muitos interessantes. O blogue está parado desde 2003. Cinco anos: uma eternidade em tempo blogosférico. Ainda assim encontrei-o, li-o, e gostei.
Aqui fica um dos textos publicados pelo João Nogueira.
A Omnipresença do Olhar: Do Olhar Clínico ao Olhar Sociológico (act)
A partir dos trabalhos de Michel Foucault (1963) e de alguns autores pós-foucauldianos – a expressão não é a melhor, bem sei – sobre a medicina nas sociedades contemporâneas, generalizou-se, na literatura sociológica e historiográfica, o uso das expressões «le regard clinical» ou «le regard médical» – o olhar clínico. Penso, designadamente no trabalho de autores como Bryan S. Turner (1992, 1995), Deborah Lupton (1994), David Armstrong (1994), Paul Atkinson (1995) ou Nick Fox (1993) [consultar adicionalmente os interessantes volumes colectivos organizados por Colin Jones e Roy Porter (1994) e, pouco depois, por Alan Petersen e Robin Bunton (1997)].
Essas expressões são utilizadas, amiúde, com o propósito analítico de desmontar o dispositivo exegético bio-médico que permite o diagnóstico a partir de sintomas superficiais e irrelevantes. De acordo com essa literatura, esse olhar é, sobretudo, um olhar “objectificante”. Um olhar que codifica os corpos e os reduz a objectos de observação.
O olhar sociológico não é diferente. Primeiro estranha-se. Depois, lentamente, entranha-se. E não é pouco. Onde eu via vizinhos, vejo hoje “relações sociais de vicinato”. Onde eu observava ricos e pobres, observo hoje “sistemas e estruturas de classe” e “grupos de status”. As conversas sobre afectos transformaram-se em “discursos da conjugalidade e de sexualidade”. Para onde quer que olhe vejo uma realidade codificada: campos, sistemas, esferas, actores, sujeitos, agentes, discursos, narrativas, economias de bens simbólicos, etc. Enfim, uma construção sociológica da realidade: uma matriz de (re)interpretação dessa realidade.
E não é, advirto, apenas uma mera questão de substituição de “expressões”. Longe disso. Sempre que entro no metro entretenho-me a analisar as “estruturas proxémicas e quinésicas” dos passageiros e a desconstruir os seus “projectos de corporeidade”. Quando participo em conversas dedico-me a desmontar as “para-linguagens” e o uso de “recursos seguros” por parte dos meus interlocutores. São disposições incorporadas. Faço-o “automaticamente” e sem uma intenção deliberada de o fazer. E é nesses momentos que o meu superego sociológico – sim, ele existe – começa a actuar forçando a reflexividade sobre as minhas acções… É então que me ponho a pensar que este olhar não é menos objectificante que o olhar clínico e me apercebo das (muitas) similitudes entre os dois dispositivos exegéticos.
Este “olhar” é, ademais, quase omnipresente… e reflexivo (ou auto-reflexivo). Daí que produza, com inusitada frequência, textos como este em que desconstruo o “olhar sociológico” recorrendo, para o fazer, ao meu “olhar sociológico”. Enfim, são, como diria Raymond Boudon, os “efeitos perversos” do meu processo de incorporação da sociologia.
Armstrong, David (1994), «Bodies of Knowledge/ Knowledge of Bodies», in Colin Jones e Roy Porter (eds.) (1994), Foucault: Power, Medicine and the Body, London: Routledge.
Atkinson, Paul (1995), Medical Talk and Medical Work: The Liturgy of the Clinic, London: Sage Publications.
Foucault, Michel (1963 [1993]), Naissance de la Clinique, Paris: Quadrige/ PUF .
Fox, Nick (1993), Postmodernism, Sociology and Health, Buckingham: Open University Press.
Jones, Colin e Roy Porter (eds.) (1994), Foucault: Power, Medicine and the Body, London: Routledge.
Lupton, Deborah (1994), Medicine as Culture: Illness, Disease and the Body in Western Societies, Londres: Sage Publications.
Petersen, Alan e Robin Bunton (eds.) (1997), Foucault, Health and Medicine, London: Routledge.
Turner, Bryan S. (1992), Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology, London: Routledge.
Turner, Bryan S. (1995), Medical Power and Social Knowledge, London: Sage Publications.
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Tenho reparado em alguns “confrontos” entre portugueses e brasileiros na Internet. Basta fazer umas pesquisas pelo youtube e ver os comentários e diálogos que se geram entre pessoas das duas nacionalidades. Também temos um bom exemplo se acedermos a alguns fóruns, blogues, ou chats. No fundo, qualquer plataforma que permita a troca de palavras entre portugueses e brasileiros é um bom local para encontrar racismo, ódio, e preconceito.
Os estereótipos são as principais armas de arremesso. Os portugueses são burros e velhos. Um povo racista e pouco humilde. As portuguesas são feias, gordas, têm bigode, e corrimento vaginal (esta pérola anda por aí). Os brasileiros são burros e atrasados. Um povo miserável que só liga ao samba e ao Carnaval. As brasileiras são prostitutas.
Os povos irmãos odeiam-se. Como dois bons irmãos, pois claro.
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Vale a pena ler o que se vai escrevendo por aqui acerca da subida persistente do preço do petróleo, e do papel que especulação tem no preço final.

A ler estes dois textos (este, e este), e os que se seguirão.
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Foi descoberta uma tribo indígena na Amazónia. A tribo foi fotografada a partir de um avião, e os seus membros reagiram ao “monstro voador” disparando flechas e lanças. É das últimas tribos perdidas nesta região do nosso planeta.
Devemos contactá-los, estudá-los, e, inevitavelmente, mudá-los? Ou deixá-los em paz, simplesmente?

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Como houve quem gostasse deste post, principalmente pelo vídeo do programa Crossfire, coloco aqui um outro, de 1987, em que Frank Zappa enfrenta de novo alguns homens cinzentos. Desta vez estão todos em cinzento devido à qualidade do vídeo, mas que não existam dúvidas sobre quem é quem, e, acima de tudo, não nos enganemos sobre quem foi verdadeiramente derrotado pelos ventos da mudança.
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Já demonstrei aqui a minha perspectiva em relação a esta discussão. O governo também quer criminalizar os donos de cães perigosos quando os seus animais cometem um “ilícito”. Não estou de acordo. Não devem ser só os donos de animais «catalogados» como perigosos a serem responsabilizados por eles. Se um caniche me morder o tornozelo eu também vou pedir contas à sua dona, e quero que ela pague criminalmente por isso. (Quem encontra um estereótipo na última frase?) Haja o mínimo de igualdade perante a lei! Mas… não é essa a questão.

A questão central é o medo. O medo e a ignorância que criam esta diabolização de simples animais. São tão só animais que não têm nenhum gene malévolo que os leve institivamente a morder criancinhas.
O medo, e o que ele provoca, em alguns comentários à notícia do Público:
(i) “Acho bem que sejam completamente proibidas as raças perigosas. Quantas crianças mais, precisam de morrer ou ficar desfiguradas para o resto das suas vidas???”
(ii) “E ser bem aplicada, estamos fartos de ter leis giras para não cumprir. Ainda este fim de Semana apanhei um susto junto à Bomba da Repsol Entrada de Olhão (Sentido Faro-Olhão), estacionei junto à bomba e antes de sair do carro avançou uma PitBull preta sem acaimo e sem trela com o dono a assistir reside nas casas próximo e não chamou a cadela. Tem sinais de estar a amamentar…criar mais uns meninos iguais à mãe. Esta lei há muito deveria estar ai!!! E ser aplicada com dureza! Mais uma vez deixo o alerta à PSP de Olhão, para agir quanto antes.”
(iii) “As vezes os “amigos dos animais” deviam ser mordidos por rotwaillers, ou pitbull´s, para saberem o que doi. Como se julga um ataque a uma criança por um animal desses?!por mim era extingui-los, mas como este país está meio “efeminado” fiquemos pela segunda melhor solução culpar os donos…Que metam açaimes, que nao os deixem à solta. Os amiguinhos dos animais preferem um cao a um humano….Arranjem amigos, e familia…. Nem deviam ser ouvidos nestas questões.”
É somente com base no medo cego que se dá este salto gigante para a frente, e se ultrapassa tudo o que se deve fazer, e devia ter feito antes, no que concerne à legislação sobre animais domésticos. Disse.
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A recorrência da pobreza na actualidade nacional é louvável, mas não se deve levar a sério. Mais dia, menos dia, fica tudo na mesma.
Um Relatório Sobre a Situação Social na União Europeia (UE) refere que Portugal é o país mais desigual da UE. Bruto da Costa, que divulga o seu estudo “Um Olhar sobre a Pobreza” no Público, alerta-nos para o problema da persistência da pobreza em Portugal, e para a multidimensionalidade do fenómeno. Louvável.
No campo político, Manuela Ferreira Leite (MFL) disse há uns dias que estava preocupada com os “novos pobres”. Só que os “novos pobres” já estão a ficar velhos. Num estudo encomendado pela Comissão das Comunidades Europeias, publicado num relatório em finais de 1989, já se faziam referências aos “novos pobres”, e explanava-se o complexo fenómeno da exclusão social e da pobreza pelas suas várias dimensões. MFL vem um pouco tarde, mas o que é realmente importante é que os conceitos soem a algo fresco.
O problema é sempre o mesmo. O diagnóstico é profundo, e vai bem além dos soundbytes dos políticos. Já a acção fica sempre na linha de partida. Há olhares preocupados e «humanos», e há até um consenso moral, mas não há um consenso prático para levar a Pobreza por um caminho sem retorno em direcção à extinção.
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Com a modernidade veio a burocracia. E com a burocracia veio o desespero e impotência face a algumas máquinas administrativas.
Hoje fui (tentar) buscar um certificado do ensino secundário de um ex-aluno à respectiva escola secundária. Fui fazer um pequeno favor a uma pessoa que trabalha durante todo o dia, e que por isso não tinha qualquer possibilidade de ir levantar o certificado. O documento tinha sido requerido uma semana antes. Foram pagos dois euros no momento em que se fez o requerimento. Estava tudo certo. Era só chegar lá com o recibo e levantar um simples documento.
Ora bem, quando cheguei à secretaria e apresentei o recibo disseram-me que tinha de requerer o diploma dessa pessoa, que nunca tinha sido requerido antes, para que o chefe da secretaria pudesse assinar o certificado. Era simples, no fundo. Estúpido e ilógico, mas burocraticamente simples. Tinha de ir buscar outra folha de requerimento (igual à usada para requerer o certificado que foi pedido uma semana antes), preencher, pagar seis euros, e obter outro recibo para depois ir levantar o diploma mais tarde. Feito este procedimento o chefe da secretaria já poderia assinar o tal certificado. O certificado estava ali, à minha frente. Eu vi-o. Era azul. Tinha os nomes das disciplinas, as classificações, e a média final. Até já estava pago. Faltava a malfadada assinatura. E eu só podia ter o rabisco do senhor chefe dos serviços se pedisse um documento que não queria, e pagasse por ele.
Neste enredo kafkiano, a ironia está no facto de eu poder requerer o diploma de outra pessoa, mas não poder receber um documento que foi devidamente requerido e pago, seguindo assim todos os trâmites.
Não requeri o diploma e vim embora. A pessoa que precisava do certificado (para se candidatar a um emprego fora do país) vai enviar toda a documentação sem o tal certificado. Vamos lá ver o que dá.
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