Feeds:
Posts
Comentários

O Mapa dos Valores

http://www.worldvaluessurvey.org

Um mapa-mundo muito interessante que distribui os países em duas dimensões de valores: valores de sobrevivência vs. valores de auto-expressão ; valores tradicionais vs. valores secular-racionais.

Portugal está, curiosamente, mais próximo da América Latina do que da Europa do Norte. Situamo-nos longe dos valores de sobrevivência, mas ainda muito próximos dos valores tradicionais.

Repare-se na importância da religião e do desenvolvimento económico e social para o posicionamento dos países em termos de valores e mundividência. Particularmente interessante é a oposição entre católicos e protestantes.

“The sun always shines on tv” – A-ha

Na frente?

Quem circula diariamente por Vila Nova de Gaia pode ver, espalhados um pouco por todo o concelho, cartazes de propaganda? política do PSD para as Autárquicas 09. O primeiro cartaz que vi foi o da minha freguesia (Valadares)  e lá estava o slogan «Valadares na frente». Perguntei-me logo “Na frente do quê?”. Qual é o significado objectivo daquela frase? Não vejo em que é que estamos na frente, a não ser no campeonato dos velhotes mais compridos do mundo.

Depois lá vi os restantes cartazes das outras freguesias. Mafamude na frente, Madalena na frente, Santa Marinha na frente…  Estão todas elas na frente de alguma coisa, não se sabe bem do quê. No Porto o slogan é diferente, mas a uniformidade entre as diversas freguesias mantém-se.

Os cartazes são a única forma de os políticos chegarem à maioria dos eleitores. Não tenhamos ilusões. Uma cara, uma frase, um símbolo, são o pouco que muitos têm para decidir em quem votar. Qualquer slogan político é em si mesmo uma mão cheia de nada, ou quase nada. Se nem o slogan é original, ou específico para os eleitores a que se destina, como é que se decide?

Uma escolha miserável do marketing político do PS.

Revivalismos

80s Há uns tempos fui a uma sessão de debate sobre “revivalismos” e não liguei patavina. Disseram-se poucas coisas interessantes, e o mais perto que estive de assistir a um espírito revivalista foi quando se projectaram fotos do Porto nos anos 60 e 70. O revivalismo, para mim, é uma revisita do passado, um retorno com novos contornos, uma tentativa de reviver uma experiência, um ambiente, um modo de estar. Obviamente que não se falou de nada disso.

Na altura eu não tinha a consciência de que era, de certa forma, um revivalista. Isto porque gosto de revisitar tempos que não vivi. Música, cinema, arte em geral. Revisito os anos 80 na música e no cinema, mas não os vivi. Nasci a meio da década de 80 e às vezes acho que devia ter nascido em 74 ou 75.  Revisito a época medieval nas feiras medievais de verão, e nas minhas visitas a monumentos, como tanta gente o faz. Revisito o Porto oitocentista nos meus passeios curiosos.

Revisitar é viver?

“The Captain of Her Heart” – Double

«Bom, caso tenham estado a viver enterrados num buraco (no gelo! – har har), nós pinguins, sobretudo Eu, o Miguel, o Guilherme e o Gonçalo, estamos deveras insatisfeitos com as nossas vidas. Quero tentar explicar algumas das razões pelas quais isso acontece, de um ponto de vista principalmente pessoal (mas haverá quem se identifique com o que escrevo, mesmo se o ‘estamos’ é só para não estar sempre a utilizar a primeira pessoa do singular); talvez identificar alguns dos problemas nos ajude a combatê-los; mesmo que não, apeteceu-me escrever isto e achei que o devia partilhar convosco. Creio que todos (sim, eu também) somos culpados dos males que se seguem. Sei que todas as questões se ligam umas com as outras; esta foi a ordem possível. Talvez me tenha também esquecido de mencionar alguma coisa. (Ah, espero sinceramente que ao lerem isto não fiquem “ah, agora é que estou mesmo deprimido”.)

Porque estamos Velhos

A sério: quantas vezes vos acontece algo do género de ler, com inveja, que alguém tem 16 anos ou assim e pensar “bom, também só tenho mais… QUATRO anos!?!?”, o que leva imediatamente a “OMFGOMFG&c, sou tão velho! que horror! o que é que aconteceu ao tempo?”. Certamente muitas. A mim também: só de pensar que as irmãs do Guilherme, do Alex e do Berna têm a idade com a qual eu saí do liceu… Sentir-se velho, de vez em quando, é natural; mas nós, por causa da inutilidade das nossas vidas, não temos conseguido lidar bem com a passagem do tempo – como se por não o aproveitarmos não quiséssemos que passasse.

Porque estamos Velhos

Às vezes penso que nas nossas cabeças não somos muito melhores do que há uns anos. Por vezes dou-me conta de que a minha transição da adolescência para a ‘adultidade’ falhou profundamente. Não temos nenhum conhecimento empírico da vida, não adquirimos quase nada com a nossa passagem à idade adulta, não evoluímos. Claro que isto acentua a ideia de “o que é que aconteceu ao tempo?”, o que nos deixa ainda mais deprimidos.

Porque somos Inúteis

Talvez a mais óbvia e abrangente. Nós não fazemos nada. Estamos umas horas na faculdade, estudamos um bocadinho e depois vamos para o computador ou entretermo-nos de qualquer forma estúpida e inane. Não trabalhamos para ganhar dinheiro e experiência. Não estudamos fora do currículo universitário. Não praticamos desporto. Não tocamos música, não escrevemos textos, não vamos a museus, não vamos conhecer pessoas, não vamos passear, não ficamos sequer sentados em qualquer lado a trocar ideias. Desperdiçamos o nosso tempo inùtilmente. Assim, como podemos ter testemunhos, tangíveis ou não, da nossa realidade biopsicotemporal, da nossa vida? É sobretudo por isto que não nos damos conta do tempo passar.

Porque somos Preguiçosos

Bom, queixamo-nos, mas a verdade é que a culpa de estarmos assim é (quase) toda nossa. Não fazemos nada para contrariar isto (ou não o fazemos sèriamente). Repetimos muito, muito mais “temos de….” do que fazemos, realmente, o “….”. Eu queixo-me da fac, mas ainda não me mentalizei para me mudar mesmo. Queixo-me da minha família, mas não tomo decisões assertivas com vista a sair daqui. Talvez tenha a ver com sermos uma data de putos mimados e preguiçosos habituados a que lhes tratem dos problemas. Acho que é forçoso e urgente pararmos com as merdas de “devíamos” e começarmos a agir.

Porque estamos Assim

Estamos assim porque estamos assim? O RLY? YA RLY. Acho que se algum de nós tentasse fazer um esforço para tentar corrigir o que vai mal na sua vida e partilhasse isso com os outros, iríamos por arrasto lentamente melhorar-nos, qual grupo de  ex-toxicodependentes. Infelizmente, nós (todos nós) quase só nos sabemos queixar ou propôr parvoíces que não levarão a lado nenhum, e assim será difícil saírmos deste estado.

Porque estamos Sós

Quando estávamos no lycée, estávamos sempre ao pé uns dos outros. Trocávamos ideias sobre as aulas, partilhávamos as parvoíces que nos passavam pela cabeça, colapsávamos de estupidez… Hoje, passo a maior parte do tempo por mim: não tenho ninguém com quem conversar ou apenas com quem estar – também raramente fizemos novos amigos… Além disso, quando nos encontramos, acho que perdemos um bocado aquela naturalidade que tínhamos na escola, de simplesmente estar ali. Tenho-me dado conta do quanto sinto falta disso, por parvo que pareça.

Porque estamos Sós

Bom, aqui refiro-me à outra solidão. Às vezes não se sentem chateados por não terem ‘namorado/a’? Quando penso no tempo ao qual não tenho intimidade física (e não só: ‘this, that and the other’) com outras pessoas fico realmente pasmado. Mas que raios aconteceu?

Porque a Universidade não presta

Eu tinha uma ideia algo ingènuamente idílica de quando fosse para a universidade: um sítio moderno e cosmopolita, onde se cultivasse e respeitasse o saber, onde se sentisse o poder do conhecimento. Em vez disso, hordas de idiotas estúpidos e barulhentos; professores incompetentes; um campus horroroso; um espaço e uma entidade decadentes e pouco acolhedores. Sinto-me mesmo desiludido com a Universidade em si.

Porque estamos Desiludidos

Já mencionei como a universidade me desiludiu; mas, sinceramente, nada na minha vida é como eu pensava há uns anos. Pensava em estudar algo que me interessasse, vivendo por mim, tenho uma vida interessante; toda a minha situação actual me desilude. Também estou muito desiludido comigo próprio, por tudo isto de que falo e sobretudo por não ter feito nada quanto a isto (um círculo vicioso de inacção).

Porque estamos Sensíveis

Acho que me tornei muito mais sensível à infelicidade. Dantes, podia estar sem fazer nada, podia ter um dia de merda, podia estar ao pé de gente odiosa. Agora, tudo isso me torna chateado ou infeliz ou neurasténico. Talvez por estar mais insatisfeito em geral? É provável que quando me sinta mais bem-disposto, em geral, com a vida isto me passe, mas por enquanto muitas pequenas coisas me indispõem demasiado, o que é muito chato.

Porque estamos Estúpidos

Menciono isto frequentemente: sinto que estupidifiquei imenso desde que entrei para a faculdade. Falta de interesse pelas aulas, falta de trabalho regular em casa (e de vontade de o fazer), falta de amigos ou colegas que nos estimulassem a nos ultrapassarmos.. Sinto que decaí mentalmente: tenho dificuldades de raciocínio, de concentração, de memória, e isso chateia-me imenso. Sei que alguns de vós concordam. Isto, claro, faz com que tenhamos uma má auto-estima, o que não ajuda nada a que tentemos melhorar a nossa situação.

Porque estamos Podres

Bom, este título era mais para manter o estilo. Refiro-me à nossa decadência física. Fazemos muito pouco desporto, e isso, para além de influir negativamente na nossa saúde em geral (incluindo na nossa saúde mental) e de ser outro factor de não-experiência (bom, eu não me posso queixar tanto, sempre tenho umas competições de vez em quando), também nos faz pensar com nostalgia no passado, em que estávamos mais em forma.

Pronto. Lede, catartizai, talvez reflecti, quiçá comentai.

Eduardo Mendonça, CC BY-NC-ND»


texto recebido através duma espécie de spam mail e divulgado aqui porque sim

“Love will tear us apart” – Joy Division

O Café do PS

12-2-2008-dsc000831Café do PS, em Valadares

Há uns tempos atrás, Pacheco Pereira publicou esta foto no seu blogue. Enviei-lhe a foto porque era uma curiosidade, mas também porque era uma forma de criar uma pequena interacção com um intelectual conhecido da nossa praça.

Recupero-a agora, e edito-a no meu blogue.

É um café/tasca que supostamente está afecto ao Partido Socialista, mas não é propriamente frequentado pelos seus militantes. São homens, para cima da meia-idade,  com rendimentos baixos, e capital cultural fraco, os frequentadores habituais do café. Lá dentro, uma fotografia do Jorge Sampaio na parede, algumas mesas, e uma sala de jogo improvisada nos anexos.

Nunca encontrei mais nada deste género em Portugal, e por isso a curiosidade da coisa. Aqui fica a foto.

Queridos Anos 80

Para mim, um blogue de referência na constante redescoberta da música dos anos 80.

Inquéritos?

Aplicar inquéritos é uma tarefa comuníssima nas ciências sociais.  Em circunstâncias bastante diversas, os investigadores inquirem o seu objecto de estudo através de perguntas (semi) rígidas e pré-estabelecidas. Conceber um inquérito não é tão fácil como parece, mas aplicá-lo também não.

Estou neste momento a aplicar inquéritos aos trabalhadores do comércio tradicional do Porto.  Entrar na loja, apresentar o nosso propósito, começar o inquérito (ou ir embora, agradecendo na mesma), explicar as perguntas e as possibilidades de resposta, e tentar obter a “melhor” resposta possível do indivíduo. Pelo meio disto, as interrupções e interjeições, os comentários e opiniões, as graçolas de quem chega, o possível desinteresse do respondente, que só nos quer despachar, ou a pressão de ter o patrão à beira enquanto se responde a questões sobre a satisfação no trabalho.

Enfim, um mar de bactérias que infecta a interacção hermética que o inquérito, em teoria,  exige. Mas é tudo matéria para análise, para tirar notas, para aprofundar em futuras entrevistas. Aos 5 minutos de inquéritos acrescentam-se mais 20 minutos de conversa: sobre a situação do comércio tradicional, sobre a crise, sobre os filhos que estão na universidade como nós, sobre tudo.

O inquérito nunca, mas nunca, é feito de forma pura, mas as impurezas também são importantes para a investigação, seja ela de que tipo for.

“Over the hills and far away” – Gary Moore

Fumarada

Os buracos na lei do tabaco permitiram que a displicência do costume  triunfasse. Temos lugares livres de fumo, com metade do fumo,  ou com fumo total, à escolha do freguês, ou melhor, do dono do lugar. Há de tudo, mas realço os sítios em que o fumo se concentra mais do que nunca.

fumadores

É de conclusão elementar perceber que com a menor oferta de Cafés onde é permitido fumar, se dá o incremento da procura pelos mesmos, com o consequente aumento de fumadores por metro quadrado.

Ah, que bem que sabe um café e um cigarrinho numa tarde solarenga, ou cigarro e um fininho numa noite quente de Verão!

E lá está sempre algum desprevenido não-fumador, uma figura tipo D. Sebastião num nevoeiro tóxico, um desgraçado a respirar fumo pela boca, pelo nariz, pelos olhos; até a roupa respira o fumo, o consome sofregamente até ao seu cheiro ficar tão entranhado que nem uma dose cavalar de um bom Skip ou Ariel o consegue retirar.

E é isto, mais uma lei que fica a meio do caminho.

Um dos temas que tenho vindo a abordar no decorrer da feitura da minha pequena tese de licenciatura é o do surgimento de valores pós-materialistas nas sociedades ocidentais, após a 2ª Grande Guerra. A minha análise prende-se com os valores sobre o trabalho, mas o pós-materialismo inscreve-se, obviamente, nos vários domínios da vida.

Os valores pós-materialistas são típicos das sociedades mais desenvolvidas, em que o bem-estar físico é um dado adquirido para a generalidade dos indivíduos. Com a sobrevivência assegurada, as pessoas passam a almejar algo mais do que a luta pela manutenção das suas vidas. De igual modo, quando algum bem-estar físico é a regra numa sociedade, os indivíduos que nascem no seu seio tendem a desenvolver perspectivas de vida que ultrapassam a valorização do seu próprio bem-estar. Parece contraditório, mas o aparente desdém para com as atitudes materialistas só é possível porque se vive numa sociedade materialmente forte.

Sucintamente, ser materialista é valorizar a segurança, um emprego com um bom salário, e, grosso modo, o acesso aos bens materiais. Ser pós-materialista é ir além disto, e valorizar coisas como um emprego em que “faço o que gosto”, a expressividade pessoal, e querer atingir a auto-realização.

Uma pergunta que faço é «que pós-materialismo é possível num contexto de crise (objectiva e subjectiva)?» Será que o pós-materialismo dos portugueses se está a retrair? Pessoalmente, julgo que o retraimento das atitudes pós-materialistas será apenas adaptativo, na medida em que o núcleo de valores criado nas últimas décadas não pode ser desmontado assim tão facilmente. O horizonte de valores dos indivíduos só será verdadeiramente afectado com uma crise muito mais forte e duradoura, que todos esperamos que nunca venha a acontecer.

“Kayleigh” – Marillion

Sociologando (2)

Desculpas, desculpas e mais desculpas aos leitores. Parei de escrever no blogue, primeiro por falta de tempo, e depois por falta de vontade e inspiração.

Primeiro, devo falar do estágio que fiz, e que entretanto terminou. Óptima experiência a todos os níveis, que me permitiu conhecer por dentro uma empresa importante no nosso país. O meu trabalho era fundamentalmente administrativo: tratar de papelada, atender telefones, gerir algumas bases de dados, etc. Mas também teve uma forte componente humana, bem mais difícil de gerir: participei em alguns momentos de recrutamento e selecção de pessoas, e tive de apoiar a coordenação de um processo de formação.

Quanto ao Sociologando, devo dizer-vos que tenho procurado novos colaboradores para o blogue, e espero que em breve esteja mais gente a escrever nesta plataforma.

Espero também escrever alguns textos relacionados com a tese que estou a fazer, entre outras coisas.

Voltarei a escrever em breve.

A partir da próxima sexta-feira, 11 de Julho de 2008, estarei a estagiar numa empresa de seguros. É a minha primeira experiência de trabalho “a sério”, e vai durar cerca de três meses. Ainda não sei descrever ao pormenor o conteúdo do meu trabalho, mas julgo que se inscreverá principalmente na análise interna, com colaborações pontuais no departamento de recursos humanos.

Uma das questões colocadas na entrevista de selecção foi muito simples. “Para que serve a Sociologia?” A resposta não é nada evidente. Ainda menos quando queremos fazer valer a nossa utilidade face a um empregador. Esta dificuldade em responder a uma pergunta tão simples deve-se a uma incapacidade de afirmação da Sociologia na Sociedade em geral e, particularmente, no mainstream do tecido empresarial, que é dominado pelas linguagens e saberes técnicos. O Sociólogo só pode singrar numa empresa se se apropriar dessas linguagens e saberes, tendo como valência extra os seus conhecimentos e capacidades enquanto especialista numa ciência particular, que lhe conferem uma visão/perspectiva da realidade igualmente particular. Mas não é só a Sociedade e as Empresas que falham ao não reconhecerem a Sociologia e os Sociólogos como úteis. Falham também as universidades, que insistem em produzir sociólogos-investigadores, fazedores de projectos, académicos e intelectuais, stricto senso, e se coíbem em criar sociólogos-técnicos capazes de colaborar nas empresas, e de mobilizar análises técnico-instrumentais em prol delas. Em última análise, falham também os próprios licenciados em Sociologia que não podem descurar formações complementares noutros domínios, e lhes poderão abrir portas para outras áreas profissionais.

Tenho lido o Socio[B]logue 2.0, e encontrado textos muitos interessantes. O blogue está parado desde 2003. Cinco anos: uma eternidade em tempo blogosférico. Ainda assim encontrei-o, li-o, e gostei.

Aqui fica um dos textos publicados pelo João Nogueira.

A Omnipresença do Olhar: Do Olhar Clínico ao Olhar Sociológico (act)

A partir dos trabalhos de Michel Foucault (1963) e de alguns autores pós-foucauldianos – a expressão não é a melhor, bem sei – sobre a medicina nas sociedades contemporâneas, generalizou-se, na literatura sociológica e historiográfica, o uso das expressões «le regard clinical» ou «le regard médical» – o olhar clínico. Penso, designadamente no trabalho de autores como Bryan S. Turner (1992, 1995), Deborah Lupton (1994), David Armstrong (1994), Paul Atkinson (1995) ou Nick Fox (1993) [consultar adicionalmente os interessantes volumes colectivos organizados por Colin Jones e Roy Porter (1994) e, pouco depois, por Alan Petersen e Robin Bunton (1997)].

Essas expressões são utilizadas, amiúde, com o propósito analítico de desmontar o dispositivo exegético bio-médico que permite o diagnóstico a partir de sintomas superficiais e irrelevantes. De acordo com essa literatura, esse olhar é, sobretudo, um olhar “objectificante”. Um olhar que codifica os corpos e os reduz a objectos de observação.

O olhar sociológico não é diferente. Primeiro estranha-se. Depois, lentamente, entranha-se. E não é pouco. Onde eu via vizinhos, vejo hoje “relações sociais de vicinato”. Onde eu observava ricos e pobres, observo hoje “sistemas e estruturas de classe” e “grupos de status”. As conversas sobre afectos transformaram-se em “discursos da conjugalidade e de sexualidade”. Para onde quer que olhe vejo uma realidade codificada: campos, sistemas, esferas, actores, sujeitos, agentes, discursos, narrativas, economias de bens simbólicos, etc. Enfim, uma construção sociológica da realidade: uma matriz de (re)interpretação dessa realidade.

E não é, advirto, apenas uma mera questão de substituição de “expressões”. Longe disso. Sempre que entro no metro entretenho-me a analisar as “estruturas proxémicas e quinésicas” dos passageiros e a desconstruir os seus “projectos de corporeidade”. Quando participo em conversas dedico-me a desmontar as “para-linguagens” e o uso de “recursos seguros” por parte dos meus interlocutores. São disposições incorporadas. Faço-o “automaticamente” e sem uma intenção deliberada de o fazer. E é nesses momentos que o meu superego sociológico – sim, ele existe – começa a actuar forçando a reflexividade sobre as minhas acções… É então que me ponho a pensar que este olhar não é menos objectificante que o olhar clínico e me apercebo das (muitas) similitudes entre os dois dispositivos exegéticos.

Este “olhar” é, ademais, quase omnipresente… e reflexivo (ou auto-reflexivo). Daí que produza, com inusitada frequência, textos como este em que desconstruo o “olhar sociológico” recorrendo, para o fazer, ao meu “olhar sociológico”. Enfim, são, como diria Raymond Boudon, os “efeitos perversos” do meu processo de incorporação da sociologia.

Armstrong, David (1994), «Bodies of Knowledge/ Knowledge of Bodies», in Colin Jones e Roy Porter (eds.) (1994), Foucault: Power, Medicine and the Body, London: Routledge.
Atkinson, Paul (1995), Medical Talk and Medical Work: The Liturgy of the Clinic, London: Sage Publications.
Foucault, Michel (1963 [1993]), Naissance de la Clinique, Paris: Quadrige/ PUF .
Fox, Nick (1993), Postmodernism, Sociology and Health, Buckingham: Open University Press.
Jones, Colin e Roy Porter (eds.) (1994), Foucault: Power, Medicine and the Body, London: Routledge.
Lupton, Deborah (1994), Medicine as Culture: Illness, Disease and the Body in Western Societies, Londres: Sage Publications.
Petersen, Alan e Robin Bunton (eds.) (1997), Foucault, Health and Medicine, London: Routledge.
Turner, Bryan S. (1992), Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology, London: Routledge.
Turner, Bryan S. (1995), Medical Power and Social Knowledge, London: Sage Publications.

Povo Irmão?

Tenho reparado em alguns “confrontos” entre portugueses e brasileiros na Internet. Basta fazer umas pesquisas pelo youtube e ver os comentários e diálogos que se geram entre pessoas das duas nacionalidades. Também temos um bom exemplo se acedermos a alguns fóruns, blogues, ou chats. No fundo, qualquer plataforma que permita a troca de palavras entre portugueses e brasileiros é um bom local para encontrar racismo, ódio, e preconceito.

Os estereótipos são as principais armas de arremesso. Os portugueses são burros e velhos. Um povo racista e pouco humilde. As portuguesas são feias, gordas, têm bigode, e corrimento vaginal (esta pérola anda por aí). Os brasileiros são burros e atrasados. Um povo miserável que só liga ao samba e ao Carnaval. As brasileiras são prostitutas.

Os povos irmãos odeiam-se. Como dois bons irmãos, pois claro.

A génese da modernidade ocidental situa-se nas transformações sociais ocorridas no século XVIII. Os marcos históricos da modernidade – o Iluminismo, a Rev. Industrial, a Rev. Francesa – são essenciais para percebermos uma Nova Era que nascia sob o auspício da racionalidade e da reflexividade.

Com o advento da modernidade surgiu a crença no declínio da religião. Este vaticínio ocorreu não só nos diversos campos das sociedades ocidentais, mas também, e em particular, no campo académico, e veio enformar o próprio conhecimento sociológico emergente. De facto, no século XVIII, muitas leituras da realidade implicavam uma oposição entre a modernidade (e a multiplicidade de questões que ela constitui) e a religião.

A modernidade toma o indivíduo como o seu “actor principal”. O ser humano racional substitui, em grande medida, a centralidade precedente do “cosmos sagrado”, que era gerido por instituições religiosas responsáveis, ao longo de vários séculos, pela coesão social e cultural. A ideia de que a religião deixa de ser a única instituição a cuidar da coesão social, assim como a noção de que ela perde o monopólio da produção de sentido, torna-se comum. A realidade já não se ordena sob o dossel sagrado da religião. A religião autonomiza-se num campo social específico, e parece perder o seu ascendente sobre os diferentes níveis societais do mundo moderno, ainda que mantendo importantes níveis de influência e de intercepção com os diversos campos sociais.

Neste sentido, o termo «secularização» surge na teoria sociológica como conceito, teoria, ou paradigma (este é outro debate) a partir dos anos 60. É certo que com a modernidade surgiram as teses do declínio ou extinção da religião, mas o processo da secularização só se operacionalizou na teoria sociológica durante o decorrer da segunda metade do século XX.

Thomas Luckmann introduziu o conceito de diferenciação ou segmentação institucional. O autor considera que com a modernidade emergiram subsistemas sociais com um grau de autonomia relativo, e que, deste modo, também a religião se autonomizou numa esfera social autónoma. Uma das consequências da segmentação institucional será a privatização da religiosidade.

Os autores da secularização consideram que a modernidade acarreta o enfraquecimento da dimensão institucional da religião, e a sua privatização. Os ligames sociais e culturais de cariz religioso, que foram consistentes durante séculos, desgastam-se, e as instituições religiosas perdem o seu poder. Os indivíduos sentem-se livres para encontrar, de forma autónoma e reflectida, o seu próprio universo de significações diante de um mundo fragmentado (um “mundo de mosaicos”). Assim, a própria multiplicidade de movimentos religiosos na actualidade, e os trajectos individuais de pessoas de diferentes grupos religiosos que se cruzam, são o reflexo desta secularização. A fragmentação religiosa e o seu “mercado aberto”, herético, e sincrético, é um espelho dessa perda de influência da religião, e sinónimo do que se chama de processo de secularização.

Para Peter Berger, a secularização reflecte-se enquanto processo marcado pela emancipação das representações colectivas em relação às referências religiosas. Isto representa uma clara ruptura com a função tradicional da religião, que era precisamente a de estabelecer um conjunto integrado de definições de realidade que pudesse servir como um universo de significado comum aos membros de uma sociedade. A religião deixa de ser um “sacred canopy” (dossel sagrado) para sociedade.

Bryan Wilson desenvolve uma perspectiva evolucionista das mudanças estruturais operadas no campo religioso. Ele segue uma perspectiva inspirada em Weber. Este autor estabelece uma proximidade entre a secularização e a racionalização. As tecnologias levam à racionalização da vida em sociedade, e contribuem para o “desencantamento do mundo”. A diferenciação e a autonomização aparecem-nos como consequências dessa racionalização e constituem os conceitos base da secularização. Para este autor é muito importante a noção da passagem da “comunidade” para a “sociedade”, assim como as mudanças nas relações sociais implicadas nessa mesma passagem.

Deste modo, nas sociedade modernas a religião tem vindo a enfraquecer e a tornar-se mais periférica. Mas também ressurge: diferenciando-se e segmentando-se; moldando-se a novos quadros de valores e modos de viver o religioso; e (sobre)vivendo à intempérie das mudanças sociais mais recentes.

Mensagens Antigas »